O futuro dura muito tempo para chegar
Autor: Luiz Werneck Vianna*
Publicado em: 3 de janeiro de 2022
Atualizado em: 7 de janeiro de 2022
O futuro dura muito tempo para chegar em nosso país, às vezes chega perto, roça mesmo o limiar do horizonte como se aprestasse a aportar, mas recua sem forças de ir em frente sem conseguir se desvencilhar das pesadas correntes que o atam ao passado.
Três décadas atrás, com a entrada em cena da Carta de 88, teve-se a sensação que o caminho estava aberto para ele, mas debalde, apetites mórbidos pelo poder, inclusive com origem nos setores subalternos da sociedade, nos conduziram ao desastre da eleição de Collor, do qual nos soubemos livrar sem que tivéssemos aprendido com os equívocos que nos desapartaram da política que nos levaram a derrotar o regime autoritário em 1985. Se antes combinamos os temas e a agenda da democracia política com os da questão social, desde aí a pauta do social passa a dominar com a implícita concepção de que os valores e as instituições democráticas instrumentalmente estariam a seu serviço.
Os efeitos nefastos dessa separação não tardaram a se fazer sentir, especialmente no fosso aberto, a partir da conquista da hegemonia na esquerda pelo PT, entre a memória da política das lutas pela democratização orientadas por amplas alianças e a política levada a cabo pelo PT, que desconsiderou os nexos dos temas sociais com o aprofundamento da democracia, especialmente no governo Dilma Rousseff. Em equívoco igualmente grave, os governos do PT passaram a conceder primazia à conquista de posições no interior do Estado, em que logo se insinuaram práticas não republicanas na administração pública, em detrimento do seu enraizamento na sociedade civil.
Afastado de suas antigas bases sociais e vulnerável às acusações de malfeitos de muitos dos seus quadros dirigentes, como no caso da administração da Petrobras, o PT e seu governo se tornaram presa fácil do impeachment, com o que ainda mais se aprofundou o afastamento ao que sobrevivia dos tempos da política dos idos dos anos 1980. A sanha denuncista que sobreveio com a instalação da chamada república de Curitiba tornou o campo da política um imenso deserto, sepultando a memória das lutas pela democratização do país e importando em reais ameaças a seu melhor fruto, a Constituição de 1988.
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Publicado originalmente em Horizontes democráticos.
*Professor do Departamento de Ciências Sociais da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio).
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