O fim da jornada 6×1 é uma questão de saúde
Autor: Thiago Lopes Cardoso Campos
Publicado em: 2 de dezembro de 2024
Atualizado em: 3 de dezembro de 2024
A jornada 6×1 não é apenas uma escala de trabalho; é o retrato de um sistema que perpetua desigualdades, aprofunda injustiças e compromete a saúde física, mental e social de milhões de brasileiros. Trabalhar seis dias consecutivos para descansar apenas um não é somente uma afronta ao trabalhador; é uma agressão silenciosa às famílias que perdem o convívio, às crianças que crescem sem a presença dos pais e à própria sociedade, que se torna vítima de um modelo que normaliza o adoecimento e a exaustão.
A Constituição Federal, em seu artigo 196, preconiza a saúde como um direito que deve ser garantido mediante políticas públicas, sociais e econômicas, que atuem especialmente sobre as causas que possam gerar risco de adoecimento e promovam um ambiente saudável. Para além da assistência médico-hospitalar, a atuação sobre os agentes que produzem o adoecimento, entre os quais está o trabalho, é essencial para assegurar o direito humano fundamental à saúde, conforme preconizado pela Constituição.
Além dos impactos na saúde individual, as consequências da escala 6×1 reverberam na sociedade, tornando-se um problema de saúde pública.
É impossível desconsiderar a estreita correlação entre a jornada 6×1 e os resquícios de uma sociedade escravocrata. A exploração dos corpos negros foi a base da economia brasileira, calcada em um padrão de subjugação e submissão a um sistema laboral desigual, perverso e adoecedor. Diversos estudos evidenciam que a população negra é a mais afetada pela escala 6×1, predominantemente ocupando postos de trabalho de baixa remuneração e alta exaustão física e mental. Esse padrão perpetua uma herança racista que trata o corpo negro como força de trabalho descartável, negando-lhe o direito ao descanso, ao lazer e ao cuidado pessoal. Combater a escala 6×1 é também combater o racismo estrutural e reafirmar o compromisso com a dignidade humana.
Estudos mostram que jornadas prolongadas têm impactos negativos na saúde física e mental dos trabalhadores, incluindo estresse, fadiga, transtornos mentais e aumento do risco de doenças cardiovasculares. Segundo dados da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) , problemas relacionados ao trabalho, como depressão e transtornos osteomusculares, atingem uma parcela significativa dos trabalhadores brasileiros.
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