O estilo perigosamente atraente da extrema-direita
Autor: Vijay Prashad
Publicado em: 4 de dezembro de 2023
Atualizado em: 4 de dezembro de 2023
Queridas amigas e amigos,
Saudações do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social.
Antes de vencer as eleições presidenciais da Argentina em 19 de novembro, Javier Milei divulgou um vídeo de si mesmo em frente a uma série de quadros brancos. Colados em um quadro estavam os nomes de várias instituições estatais, como os ministérios da Saúde, Educação, Mulheres e diversidade de gênero, obras públicas e Cultura, todos reconhecidos como elementos típicos de qualquer projeto estatal moderno. Caminhando pelo quadro, Milei arrancou os nomes desses e de outros ministérios enquanto gritava afuera! (“fora!”) e declarando que, se fosse eleito presidente, essas pastas seriam abolidas. Milei prometeu não apenas reduzir o Estado, mas também “explodir” o sistema, aparecendo frequentemente em eventos de campanha com uma motosserra na mão.
A reação ao vídeo viral de Milei e a outras manobras do gênero foi tão polarizada quanto o eleitorado argentino. Metade da população achava que a agenda de Milei era uma loucura, o sinal de uma extrema-direita fora de contato com a realidade e a racionalidade. A outra metade achava que Milei demonstrava exatamente o tipo de ousadia necessária para transformar um país atolado na pobreza e com uma inflação galopante. Milei não apenas venceu a eleição; ele a venceu com folga, derrotando Sergio Massa, o ministro da Economia do governo anterior, cujas promessas centristas e obsoletas de estabilidade não agradaram a uma população que convive com a instabilidade há décadas.
As propostas de Milei para solucionar a espiral descendente da economia argentina não são únicas nem práticas. A dolarização da economia, a privatização das funções do Estado e a supressão das organizações de trabalhadores são os pilares da agenda de austeridade neoliberal que tem atormentado o mundo nas últimas décadas. Debater Milei sobre essa ou aquela política tira de perspectiva o fator da ascensão da extrema-direita em todo o mundo. O que importa não é o que eles dizem que farão para resolver os problemas reais do mundo, mas como eles dizem que farão isso. Em outras palavras, para políticos como Milei (ou o ex-presidente do Brasil Jair Bolsonaro, o primeiro-ministro da Índia Narendra Modi e o ex-presidente dos EUA Donald Trump), não são suas propostas políticas que são atraentes, mas seu estilo – o estilo da extrema-direita. Pessoas como Milei prometem pegar as instituições do país pela garganta e fazê-las apresentar soluções. Sua ousadia causa um frisson na sociedade, uma sacudida que se disfarça como um plano para o futuro.
Houve uma época em que a disposição geral da classe média internacional se concentrava em garantir comodidades: eles odiavam o incômodo de ficar presos em engarrafamentos e filas, de não conseguir colocar seus filhos na escola de sua escolha e de não poder comprar – mesmo que a crédito – os bens de consumo que os faziam se sentir culturalmente superiores uns aos outros e à classe trabalhadora. Se a classe média não estivesse incomodada, então essa classe – que forma o eleitorado da maioria das democracias liberais – ficaria satisfeita com as promessas de estabilidade. Mas quando todo o sistema entra em convulsão com incômodos de um tipo ou de outro – como a inflação, cuja taxa era de 142,7% na Argentina no início das eleições em outubro, então a garantia de estabilidade tem pouco peso. As forças políticas do centro, como as do oponente de Milei, estão presas ao hábito de falar sobre estabilidade enquanto o país está em chamas. Eles prometem pouco mais do que uma destruição gradual. Nesse contexto, a timidez nem sempre é atraente para a classe média, muito menos para os trabalhadores e camponeses, que precisam de uma visão ousada em vez de uma fixação em aumentos suaves do custo de vida, juntamente com isenções fiscais para grandes empresas.
Essa timidez não tem a ver apenas com o caráter da força política que aproveita o momento. Se assim fosse, o simples fato de gritar mais alto deveria conquistar os votos da centro-esquerda e da esquerda. Em vez disso, ela reflete a timidez crescente da centro-esquerda e de sua plataforma política, esvaziada pelos imensos estresses e tensões que prejudicaram a sociedade em um nível neurológico. A precariedade do emprego, o recuo do Estado na prestação de cuidados ao seu povo, a privatização do lazer, a individualização da educação e outras tensões produziram, juntos, problemas sociais avassaladores (sem mencionar o impacto da catástrofe climática e das guerras brutais). O horizonte político de grandes setores da centro-esquerda foi reduzido à mera administração dessa civilização em decadência (conforme nosso último dossiê, O que podemos esperar da nova onda progressista na América Latina? aponta). O fracasso persistente dos governos em resolver os problemas da sociedade fez com que a própria política se tornasse estranha para grande parte do público.
*Publicado originalmente no Instituto Tricontinental de Pesquisa Social.
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