O Brasil que não brinca em serviço… só finge

Autor: Ana Julia Silveira, Carlos Cavalcante e Diego Figalva
Publicado em: 17 de julho de 2025
Atualizado em: 5 de setembro de 2025

Em meio a um país que enfrenta uma crise humanitária, com milhões em situação de fome, desemprego e insegurança ambiental, parlamentares de pelo menos 14 estados brasileiros e do Congresso Nacional apresentaram mais de 40 projetos de lei voltados a um tema, no mínimo, curioso: os bebês reborn – bonecas hiper-realistas que imitam recém-nascidos.

Na mira do Legislativo, o que antes era um nicho artístico e terapêutico passou a ser tratado como uma possível “ameaça pública”, com propostas que preveem multas para quem utilizar as bonecas para acessar serviços públicos ou obter benefícios indevidos. Para entender a dimensão do fenômeno, investigamos os sites de todas as assembleias legislativas estaduais e do Congresso Nacional entre 12 e 17 de junho. A partir desse levantamento, identificamos os projetos em tramitação voltados à temática reborn – propostas que foram encerradas antes desse período ou apresentadas após esse intervalo podem não estar contempladas neste mapeamento.

A mobilização em torno das bonecas revela uma disputa política que ultrapassa o universo dos brinquedos e expõe tensões sobre prioridades governamentais, uso de recursos públicos e o controle simbólico sobre comportamentos frequentemente associados às mulheres. Enquanto grandes demandas sociais seguem urgentes e sem resposta, a atenção dedicada a esse tema levanta questionamentos sobre o real foco dos legisladores em 2025.

Do renascimento ao campo de batalha digital
A arte reborn surgiu no pós-Segunda Guerra Mundial, na Europa, quando mães começaram a reconstruir bonecas a partir dos destroços deixados pelo conflito – um gesto simbólico de renascimento, daí o nome reborn (“renascido”, em inglês). Décadas depois, a prática evoluiu para um refinado trabalho artesanal com moldes realistas, pintura em camadas e cabelo implantado fio a fio.

Hoje, o reborn se consolidou como um mercado global. São bonecas que podem ultrapassar os R$8 mil, buscadas por colecionadores, artistas e, claro, por crianças. No TikTok, os vídeos com as hashtags #bebêreborn, #reborn e #rebornsoftiktok já passam de um milhão de publicações. O conteúdo vai de tutoriais a encenações de “rotinas maternas”, alimentando uma base engajada – e cada vez mais controversa.

Foi justamente o conteúdo das redes que transformou as bonecas reborn em alvo do Legislativo. Tudo começou com um post viral no X (antigo Twitter): uma usuária contou que foi chamada para uma entrevista de babá e se deparou com um bebê reborn. Segundo ela, a suposta mãe dizia que precisava com urgência de uma babá.





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