O Assassinato de Moïse Mugenyi Kabagambe
Autor: Tania Palma* e Vilma Reis**
Publicado em: 3 de fevereiro de 2022
Atualizado em: 3 de fevereiro de 2022
A dor da violência racial é insuportável
Aos olhos complacentes de muitos, no Rio de Janeiro, no bairro da Barra da Tijuca, três homens espancaram até a morte o imigrante Congolês Moïse Mugenyi Kabagambe, de 24 anos, porque foi cobrar o pagamento atrasado por seu trabalho. Tanto nos bairros brancos da Zona Sul quanto nas favelas das zonas Norte, Sul e Oeste são frequentes os assassinatos de negros e pobres por milícias formadas por ex-policiais e policiais da ativa, protegidas por empresários, vereadores, deputados e membros na estrutura do poder do Estado, pois além do gás e da internet, essas milícias juntamente com algumas denominações evangélicas já controlam o processo eleitoral nas comunidades.
As poderosas organizações que controlam o consumo, o tráfico de drogas e o jogo do bicho movimentam bilhões de dólares e alimentam uma rede que já está enraizada na própria estrutura de poder do próprio Estado. A mesma classe média reacionária e xenófoba que assassinou Moïse e que também assassinou Marielle Franco, que elegeu Bolsonaro e seus filhos no RJ, é a mesma que usa as milícias e a polícia do Estado para a defesa de seus próprios interesses.
Na vigência do governo fascista do Bolsonaro, a cada dia assistimos a uma guerra sangrenta crescente alimentada pelo racismo e pelo ódio à população negra, indígena, LGBT e aos imigrantes pobres. Negros e negras morrem diariamente de mortes matadas e mortes morridas. A barbárie naturalizada já não incomoda mais. Em tempos da Covid-19, enquanto diariamente milhares de vidas negras e pobres cotidianamente são dilaceradas, consequência direta de um governo genocida, fascista e fundamentalista, seus milicos e seguidores, à sombra do Estado, em operações macabras, desrespeitando a ADPF 635 estabelecida pelo STF, promovem e organizam a ascensão dos grupos de extrema direita ao poder, fortalecendo as ideias nazistas de supremacia racial e de classe e favorecendo a expansão do capitalismo na América Latina e no mundo.
No Brasil, com uma democracia em ataque permanente pelos que controlam a guerra cultural, um Poder Judiciário amedrontado e uma classe média dividida, que ora oscila para a extrema direita ora para a defesa de seus privilégios de classe, os tempos são de ódio neonazista. Enquanto mais 628 mil vidas já foram ceifadas, a maioria do povo afunda na miséria, nos elevados custos de vida e da carestia, na desmontagem do SUS e na privatização da saúde, privatização das estatais, desmatamento da Amazônia, desastres ambientais monumentais como o de Brumadinho, fim aos direitos trabalhistas, expansão do desemprego e política econômica que privilegiam os banqueiros, os industriais, os sanguessugas do agronegócio, os larápios do dinheiro público, agora “donos da chave” do cofre nacional, que se apresentam tranquilos com seus lucros em alta. Neste cenário não há espaço para direitos trabalhistas e nem respeito aos direitos humanos.
A repercussão do brutal assassinato de Moïse Mugenyi assim como o de Marielle Franco denuncia ao mundo que o Brasil não deixou seus métodos de tortura, castigo e horror para com a população negra desde a invasão pelo poder colonial. A prática escravocrata sofisticada do século XXI é agora sustentada pelas oligarquias remanescentes, que descumprem as leis, a Constituição Federal, quando lhes é conveniente e fazem as suas próprias leis pra garantir a exploração da mão de obra geral e negra.
Clique aqui e leia o artigo na íntegra.
Publicado originalmente em Grupo Prerrogativas.
*Assistente social, ativista pelos direitos da população negra e ex-ouvidora externa da Defensoria Pública do Estado da Bahia (DPE/BA). Ativista da Coletiva Mahin Organização de Mulheres Negras para os Direitos Humanos – Organização membro da Executiva da Coalizão Negra por Direitos.
**Socióloga, mestre em Ciências Sociais pela UFBA, ativista e atuante na luta pelos direitos humanos. Ocupou por dois mandatos o cargo de Ouvidora-geral da Defensoria Pública do Estado da Bahia. Ativista da Coletiva Mahin Organização de Mulheres Negras para os Direitos Humanos – Organização membro da Executiva da Coalizão Negra por Direitos.
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