Notas para a Análise de Conjuntura
Autor: Luiz Filgueiras - Faculdade de Economia da UFBA
Publicado em: 21 de agosto de 2015
Atualizado em: 7 de janeiro de 2022
1. O Partido dos Trabalhadores, suas Direções e o Lulismo são os responsáveis fundamentais, principais, pela recente ofensiva política da direita e a ampliação e difusão de sua ideologia e dos seus valores na sociedade brasileira.
A partir dos anos 1990, após a derrota eleitoral das forças de esquerda no ano anterior, representadas pela candidatura de Lula, e o início da efetivação da agenda neoliberal pelo Governo Collor, iniciou-se o processo de transformismo do PT – que o levaria definitivamente, após a vitória de Lula nas eleições de 2002, para o campo da defesa da ordem capitalista num país periférico. Essa vitória, tal como ocorreu – lembrem-se da Carta ao Povo Brasileiro -, teve como pré-condição fundamental a aceitação prévia dessa ordem.
Diferentemente do transformismo da socialdemocracia europeia, o processo de transformismo do PT iniciou-se antes da sua chegada ao governo e, portanto, antes mesmo da implementação de qualquer de seus pontos programáticos. No entanto, tanto lá como cá, a circunstância decisiva para o transformismo foi a ascensão político-ideológica do neoliberalismo nos países capitalistas e a derrota do chamado “socialismo real” – em que pese o PT ter nascido criticando essa experiência.
O transformismo político, individual e/ou de grupos se caracteriza pela incorporação, pelas forças contra hegemônicas, do ideário político da ordem – passando a defendê-lo e a operacionalizá-lo na prática, mas mantendo um discurso e uma retórica que lembram ainda a sua atuação passada, mas já fora de lugar. Mas o transformismo político é acompanhado, necessariamente, pelo transformismo ideológico, ético e operacional. Daí não haver nenhuma surpresa nos escândalos de corrupção do “Mensalão” e, agora, da chamada operação “Lava-Jato”. A corrupção na esfera social e política não se trata apenas, nem fundamentalmente, de um problema meramente moral e individual; ela está incrustada nos mecanismos institucionais da ordem burguesa e na “balcanização do Estado”. No caso do Brasil, podem ser citados, por exemplo, o financiamento privado das campanhas eleitorais, as emendas parlamentares individuais, a enorme quantidade dos chamados cargos de confiança e a fragilidade jurídica e de fiscalização das relações entre o Estado e o capital – em especial as licitações, mas não apenas. Todos os partidos que atuam defendendo e se comprometendo com essa ordem, e seus respectivos governos, inevitavelmente se corrompem; basta lembrar o Governo Sarney (tido, então, como o mais corrupto da história), o Governo Collor (“o caçador de marajás”) e o Governo FHC (com o seu processo mafioso de privatizações das empresas públicas e a compra de votos de deputados para aprovação de um segundo mandato).
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