No caminho do caos

Autor: José Luís Fiori
Publicado em: 20 de janeiro de 2026
Atualizado em: 31 de março de 2026

Na última semana de 2025, o sistema mundial entrou em estado de hipertensão caótica. Em apenas sete dias, e quase simultaneamente, os Estados Unidos fecharam o cerco marítimo e proibiram a circulação aérea sobre a Venezuela, sem que os dois países estivessem em guerra. A China cercou a ilha de Taiwan e realizou um exercício de guerra com fogo real, incluindo a interdição de alguns segmentos de seu espaço aéreo, em resposta às ameaças militaristas do Japão. A Ucrânia atacou a casa do presidente russo Vladimir Putin, na região de Novgorod, utilizando 91 drones e com apoio da inteligência inglesa e norte-americana. A Rússia anunciou que seu novo sistema de mísseis Oreshnik – indefensáveis e com capacidade nuclear – estava pronto para uso imediato, em resposta ao ataque da Ucrânia, a poucos minutos de distância de Berlim, Paris e Londres. Os Estados Unidos bombardearam o território da Nigéria e anunciaram novos ataques aéreos em caso de necessidade, segundo seu arbítrio. A Arábia Saudita bombardeou o Iêmen, sem que houvesse declaração de guerra. Inglaterra e França bombardearam o território da Síria sem aviso prévio. E por fim, os Estados Unidos atacaram o território venezuelano e sequestraram seu presidente, Nicolás Maduro.

O mais impactante foi sem dúvida o rapto do presidente venezuelano, seguido – como em outros ataques às Américas – de um tweet de Donald Trump, contendo ameaças e difundindo o medo, que é uma peça essencial no exercício do poder. Assim mesmo, o ataque em si não representa uma novidade nas relações dos EUA com a América Latina, muito menos na história do “sistema interestatal” inventado pelos europeus. Os defensores do Direito Internacional em geral falam muito pouco, ou omitem diretamente uma de suas cláusulas fundamentais, a “cláusula de exclusão de ilicitude”, que garantiu às Grandes Potências do sistema interestatal (nunca mais do que 4 ou 5) o “direito” autoatribuído e a impunidade para atacar e invadir o território de outros países, sem respeitar o “direito à soberania” considerado como a “pedra angular” do sistema de estados nacionais, consagrada pelos europeus através da chamada Paz de Westfália, assinada em 1648.

A Inglaterra e a França usaram e abusaram deste “direito à invasão” nos últimos 200 anos, e acabaram de bombardear o território da Síria, sem nenhum tipo de permissão internacional, por sua livre e exclusiva vontade. E os Estados Unidos ingressaram neste pequeno clube dos países “com direito à invasão de terceiros”, em meados do século XIX, quando se apropriaram dos territórios mexicanos da Califórnia e do Texas, e iniciaram sua escalada imperial após a guerra contra a Espanha, em 1898, seguida pela conquista de Cuba, Filipinas, República Dominicana, Haiti, Nicarágua, Panamá e Porto Rico – este segue até hoje sob o domínio norte-americano.

Em 1942, o geopolítico norte-americano Nicholas Spykman publicou uma obra fundamental para entender a estratégia internacional dos EUA depois da Segunda Guerra Mundial. Spykman sustenta teses e faz propostas geopolíticas que reaparecem a cada momento por trás do discurso aparentemente errático e confuso de Donald Trump e do seu Secretário de Estado, Marco Rubio.

Nicholas Spykman considerava que o Caribe e o Golfo do México faziam parte de um mesmo “mar interior” dos Estados Unidos, no qual México, Colômbia e Venezuela deveriam estar sob dependência direta dos Estados Unidos, por razões de segurança nacional, sem necessitar de nenhum tipo de justificativa doutrinária ou ideológica. Quase a mesma ideia que reaparece textualmente na nova “Estratégia de Segurança Nacional” dos Estados Unidos, divulgada pelo governo de Donald Trump no início de dezembro de 2025.

*Publicado originalmente no Observatório Internacional do século XXI (ed. Janeiro/2026).





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