Mudanças na Meta irão instaurar uma tirania da maioria
Autor: Ergon Cugler
Publicado em: 14 de janeiro de 2025
Atualizado em: 19 de fevereiro de 2025
Imagine um hospital, reconhecido por tratar os casos mais complexos de doenças raras. Até ontem, as decisões sobre diagnósticos e tratamentos eram tomadas por uma equipe de especialistas — médicos, cientistas e profissionais dedicados a estudar cada caso com precisão. Porém, o CEO do hospital decide inovar e substituir a sua equipe técnica por um palanque, onde qualquer visitante pode opinar quais procedimentos adotar com os pacientes. Não importa o nível de conhecimento, experiência ou responsabilidade, cada opinião conta igualmente para definir o que será feito.
A mudança é apresentada como um marco da democracia e inclusão. Afinal, quem melhor para decidir do que “o povo” sobre o que é científico e o que não é? Porém, em menos de um plantão o caos se instala. Pacientes passam a ser tratados com métodos duvidosos e grupos organizados começam a influenciar decisões, combinando de subir no palanque para promover ideias milagrosas e descartar tratamentos comprovados. Os resultados? Diagnósticos errados, tratamentos inadequados e vidas em risco, tudo sob a justificativa de “mais espaço para o debate”.
Apesar de absurdo, é exatamente com a frase de “mais espaço para o debate” que a Meta, companhia de Mark Zuckerberg e controladora do Facebook, WhatsApp, Instagram e Threads, decidiu substituir as agências de checagens especializadas por um mecanismo de “Notas da Comunidade”, onde os próprios usuários decidem o que é verdadeiro ou falso, votando em uma enquete sobre a relevância e veracidade das informações. Agora pense naquele seu conhecido ou parente que discorda totalmente de você, você realmente acha que ele vai deixar a emoção e a polarização de lado para simplesmente dizer que a sua fala é verdadeira e a dele é falsa? E você? Conseguiria deixar a sua visão de mundo de lado para validar friamente a fala de um político que você discorda?
Quando milhões de pessoas, muitas sem qualquer preparo técnico, passam a decidir sobre temas complexos como ciência ou medicina, por exemplo, as decisões deixam de ser guiadas pela busca pela verdade e passam a refletir o que é mais popular ou conveniente. Pior ainda, grupos organizados podem manipular essas “Notas” para reforçar narrativas falsas, mobilizar um grupo de 10, 20 ou 30 pessoas para moldar a opinião pública ou deslegitimar informações confiáveis.
Em alguns casos, teorias da conspiração e desinformações prometem curas milagrosas, como no caso do uso do dióxido de cloro (ClO2), o qual propõe suposta “cura do autismo”, uma desinformação recorrente e nociva à sociedade e que já resultou em danos letais. Essa mesma mentira, por exemplo, poderia receber um selo de “verdadeira” a partir de uma Nota da Comunidade que contasse com votos suficientes de usuários bancados pelo lobby do dióxido de cloro, ou que fossem parte de um grupo de venda clandestina de produtos químicos no Telegram.
Se seria impensável confiar a vida de pacientes a decisões tomadas sem critério em um hospital, então por que aceitar que a integridade das informações que consumimos seja entregue a um sistema tão vulnerável de enquete pública? Essa mudança, apresentada como progresso, é, na verdade, um convite para uma tirania da maioria, onde o caos e a mentira ganham pelo volume.
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