Mudanças climáticas e os eventos extremos, catalisadores das desigualdades de gênero
Autor: Emanuelle Góes
Publicado em: 12 de março de 2025
Atualizado em: 22 de abril de 2025
O ciclo da carbonização é desigual, mas o da descarbonização não precisa ser. Partindo dessa premissa, estamos dispostas a refletir, informar e evidenciar que as desigualdades estruturais e prévias de gênero e raça, na sua intersecção com outros marcadores correlatos, têm tornado as condições de vida, a saúde sexual e a saúde reprodutiva de meninas e mulheres cada vez mais difícil. Neste ponto de conexão desigual, os locais mais atingidos pelos eventos climáticos extremos são aqueles em que a feminização da pobreza, as violências de gênero e ausência do estado como direito se encontram.
Intensidade e frequência, o aumento dos eventos climáticos extremos, no contexto desigual, é diretamente proporcional ao aumento das violências de gênero. É consenso, dos Organismos Internacionais e Movimentos Feministas e de Mulheres, que as mudanças climáticas provocam e adensam as desigualdades de gênero e as violências, que são geradas por efeitos diretos e efeitos indiretos. Os efeitos diretos incluem: os impactos nas instalações e infraestruturas de saúde e nas cadeias de abastecimento e insumos de saúde, que podem prejudicar o acesso a serviços de saúde sexual e reprodutiva. E os efeitos indiretos são: as consequências dos choques e tensões relacionados com as alterações do clima para as finanças das famílias, que podem reduzir os recursos disponíveis para os cuidados de saúde e o aumento da incidência de violência baseada em gênero, incluindo o casamento precoce, a violência sexual, violência doméstica e o tráfico sexual.
Divisão desigual e pobreza de tempo
A divisão sexual do trabalho, que define o papeis desiguais de gênero em muitas sociedades e realidades, se redobra nas secas extremas e períodos de longa estiagem, assim como nas grandes enchentes e inundações. No contexto de seca são as meninas e mulheres responsáveis em fazer a gestão da água, desde buscar água fazendo longas caminhadas até cuidar do uso da água no domicílio e na comunidade. As caminhadas prolongadas se tornam um dos fatores de exposição à violência sexual. Assim como, a dedicação na gestão da água gera pobreza de tempo das meninas e mulheres que são obrigadas a parar de estudar e de fazer outras coisas de suas vidas, tornando escasso o tempo para o lazer, o descanso e o cuidado.
Mulheres em condições de maiores vulnerabilidades socioeconômicas tendem a contar com menos ferramentas e rendas para enfrentar os efeitos das mudanças climáticas como residir em área menos suscetível a deslizamentos de terras ou a inundações. Neste outro ponto extremo dos eventos climáticos, as mulheres são sobrecarregadas para garantir o cuidado e bem-estar das pessoas, com tendência cuidarem dos doentes, feridos, amputados e enlutados em decorrência desses eventos.
Publicado originalmente na Agência Patrícia Galvão.
Deixe um comentário