Morte para exportação

Autor: Carla Baranzini e Vinícius Mendes*
Publicado em: 12 de julho de 2021
Atualizado em: 7 de janeiro de 2022

Para além de soja, jogadores de futebol e cocaína, o Brasil colocou no mercado das trocas globais, sedento por inovações, outro produto raro — e excêntrico — para exportação: a ausência de luto coletivo. Ele não é tão novo assim para uma economia dos afetos, em que, como pontuou recentemente um de nossos filósofos, o anúncio da morte de um vizinho no elevador do condomínio choca mais do que as estatísticas absurdas da pandemia no jornal. Porém, jamais havia existido uma oportunidade tão fortuita, um alinhamento histórico tão ideal, uma conjunção tão perfeita de fatores, para que este país apresentasse ao mundo uma mercadoria que, de fato, seria lucrativa — se pudesse ser comprada no varejo. Como não há economias afetivas nem próximas à nossa neste mundo, o fenômeno fica em desequilíbrio: há a oferta, mas não a demanda.

Não é um produto inteiramente desconhecido: quando a América Latina conseguiu vender seus romancistas mais brilhantes, nos anos 1960, seus livros estavam repletos de descrições densas sobre ele. Gabriel García Márquez dedicou um capítulo inteiro de seu clássico “Cem Anos de Solidão” ao episódio real do Massacre das Bananeiras, no Caribe colombiano, em dezembro de 1928. Júlio Cortázar deu o sugestivo nome de “Nicarágua Tão Violentamente Doce” a uma de suas obras menos conhecidas, fruto de uma viagem à América Central, e mesmo o criticado Mário Vargas Llosa se encantou com a história nebulosa do arraial de Canudos, no sertão baiano, em seu “A Guerra do Fim do Mundo”. Todos esses livros são, no entanto, também a tentativa de inserir na massa informe com a qual a história deste lado do mundo é esculpida, justamente o que a fábrica brasileira jamais teve condições de fazer: se enlutar autenticamente com a morte do outro.

É por isso que essa é coisa nossa, tal como “o samba, a prontidão e outras bossas” que Noel Rosa elencou em uma composição dos anos 1930. Para que este país fosse forjado optou-se, desde o início, pelo extermínio dos povos originários. Escolhemos não nos contar essa parte da história, como tantas outras. Foi assim que também fomos matando não apenas gente, mas principalmente a história, a memória, a existência abstrata dessa gente. Afinal, para que o Brasil pudesse nascer, quantos cadáveres africanos foram jogados ao mar? E quantos corpos que sobreviveram às viagens não conseguiram deixar de ser mercadoria? Quantas revoluções foram rapidamente enterradas em valas comuns? Quantas resistências às ambições autoritárias foram aniquiladas do espaço e do tempo? Quantas violências foram se afeiçoando cada vez mais aos cotidianos? E então, como se enlutar, se comover pela morte do outro agora? A pandemia de Covid-19, longe de ser o pesadelo em uma rotina de sonhos bons, é apenas uma lembrança cruel que nos revisita todas as noites com essas mesmas perguntas.

 

Clique aqui e leia o artigo na íntegra.

 

Publicado originalmente em Le Monde Diplomatique Brasil.
*Bacharel em Direito e Ciências Sociais; Jornalista, cientista social e mestrando do departamento de Sociologia da USP.





Deixe um comentário







Instituto de Saúde Coletiva • Universidade Federal da Bahia • Rua Basílio da Gama, s/n • Campus Universitário do Canela • 40.110-040 • Salvador-Bahia • +55 71 3283-7441 / 3283-7468

© 2024 Observatório de Análise Política em Saúde. Todos os direitos reservados.