Mercadores da ilusão: Negacionismo e ganância

Autor: Rachel Luíza Moura e Carmen Fontes Teixeira
Publicado em: 27 de novembro de 2025
Atualizado em: 27 de novembro de 2025

Nos últimos dias fomos bombardeados por notícias publicadas em vários jornais do país que repercutem a matéria publicada pelo Jornal Estadão, no dia 14 de novembro de 2025, segundo a qual alguns médicos estão usando suas redes sociais, com milhares de seguidores, para divulgar a suposta existência da “síndrome pós-spike”. Alegam que esta seria causada por vacinas contra covid-19 que utilizam a tecnologia de RNA mensageiro (mRNA) e anunciam um “protocolo” de tratamento e consultas particulares, com valores que chegam a cerca de R$1.300,00 para realizar o “detox vacinal”!

A má-fé e a intenção mercadológica desses médicos, fundamentados em uma “pesquisa” que dizem ter realizado com 5 pacientes de uma clínica particular em São Paulo, é estarrecedora. O artigo que publicaram com os “resultados” dessa “pesquisa” foi retirado de circulação pelas fragilidades metodológicas, apontadas por pesquisadores independentes. Isso não impediu que estes “mercadores da ilusão” (para dizer o mínimo) continuassem a divulgar a existência dessa “síndrome”, sem qualquer comprovação científica de sua existência, enganando milhares de pessoas que acessam suas redes sociais e pagam por “cursos” e agendam consultas particulares.

Analisar esse caso exige distinguir a dupla dimensão envolvida: de um lado, a propagação de mais uma fake news contra as vacinas, na medida em que a segurança das vacinas que utilizam a tecnologia mRNA já foi comprovada por cientistas e órgãos de saúde pública em todo o mundo; de outro, a desfaçatez desse médicos, que aproveitando-se da desconfiança gerada em parcelas da população pelo movimento anti-vacina, trataram de criar um nicho de mercado para seus “cursos”, “protocolos” e “consultas”, utilizando amplamente as redes sociais, o que, aliás, contraria frontalmente o disposto no Código de Ética Médica , que proíbe que profissionais façam propaganda de produtos e serviços de saúde.

Negacionismo Científico: a dimensão ideológica da fraude
A falácia defendida pelos médicos Roberto Zeballos (imunologista), Francisco Cardoso (infectologista) e Paulo Porto de Melo (neurologista) sugere que a proteína spike produzida pelas vacinas de mRNA para gerar resposta imune, ou seja, proteção do organismo após vacinação, teria efeitos prejudiciais que se assemelham a covid longa . Chegando ao ponto de proporem a substituição do termo “covid longa” por “síndrome pós-spike”, de modo a abranger não apenas o vírus da covid-19, mas a vacina como causa dos sintomas.

Para eles, a “síndrome pós-spike”, por vezes denominada “spikeopatia”, se caracteriza por “disbiose intestinal, um desequilíbrio na microbiota intestinal (microorganismos como bactérias e fungos que vivem no intestino). Outros sintomas incluiriam inflamação sistêmica, confusão mental, problemas nos nervos, queda de cabelo, problemas de memória, distúrbios do sono e reativação de doenças preexistentes, entre outros” (SIC).

Em junho deste ano, estes profissionais chegaram a publicar um artigo contendo essa falácia, acompanhada de suposto protocolo para “tratamento” na revista científica IDCases, que foi, entretanto, contestado , tendo a publicação sido removida pela ausência de evidências empíricas que sustentem qualquer relação (causalidade) entre as vacinas mRNA e a suposta síndrome. Além dos três médicos já identificados, assinaram o artigo Mariely Fernanda da Silva Helbingen, Caio Roberto Salvino, Ewerton Paes Seródio e Edimilson Ramos Migowski de Carvalho.





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