Marighella: entre o fato, a fake news e a ficção*
Autor: Carlos Zacarias de Sena Júnior**
Publicado em: 28 de março de 2019
Atualizado em: 7 de janeiro de 2022
A proximidade do lançamento no Brasil do filme Marighella, de Wagner Moura, aliado à repercussão da passagem do estreante diretor baiano pelo Festival de Berlim, onde o filme foi exibido, tem movimentado os debates sobre o caráter da ditadura (1964-1985) e da luta armada no país. O fato de que o cinema nacional brasileiro é ainda bastante devedor de uma abordagem consistente de temas espinhosos do seu passado recente, algo que se evidencia por comparação à cinematografia chilena e argentina, principalmente, mas também de outros países latino-americanos, adiciona expectativas alvissareiras à realização do filme. Conjugado a este fato, a atmosfera sombria que paira sobre a política no país desde a eleição do candidato da extrema-direita Jair Bolsonaro, que cercou-se de militares nomeados para diversos ministérios, o filme de Wagner Moura tornou-se alvo de inúmeras controvérsias antes mesmo de entrar em cartaz.
Quando da passagem de Wagner Moura e sua equipe pelo Festival de Berlim, onde Marighella foi exibido para uma plateia composta por jornalistas e que contou com a presença do ex-deputado psolista auto-exilado, Jean Wyllys, a reação do público foi de ovacionar e aplaudir de pé. Numa demonstração de aprovação da estética fílmica, mas também ao tom de manifesto, impresso na película pelo seu diretor, que jamais se negou a dizer das suas intenções políticas com o filme, a obra promete ainda mais polêmica até a sua estreia, e muito além, como se percebe na permanência da polarização política vivida no Brasil desde 2013.
Mesmo sem participar da competição oficial, Marighella já vinha despertando grandes expectativas da crítica e do público. Como se o personagem interpretado por Seu Jorge já não fosse suficientemente polêmico, ainda mais nos dias atuais, Wagner Moura, que também não esconde suas simpatias pela esquerda e que nas eleições presidenciais de 2018 declarou apoio ao dirigente do MTST e candidato do PSOL, Guilherme Boulos, posou para fotos com uma placa em homenagem à vereadora Marielle Franco (PSOL), executada em março de 2018, junto com seu motorista Anderson Gomes, em crime até hoje não esclarecido pelas autoridades brasileiras.
O filme de Wagner Moura é aguardado com entusiasmo e expectativa pelos apreciadores de cinema, que não veem a hora de assistir à obra de estreia do celebrado ator que interpretou com maestria o personagem capitão Nascimento, na película premiada de José Padilha, Tropa de Elite 1 e 2, e depois ainda deu vida ao traficante colombiano Pablo Escobar em série produzida pelo mesmo Padilha para a Netflix. Mas não apenas os cinéfilos aguardam a chegada de Marighella aos cinemas do Brasil. Os amantes e estudiosos da história, especialmente da controversa história recente do país, quando os militares governaram por 21 anos depois de um golpe dado em 31 de março de 1964, também aguardam ansiosamente a estreia da película, haja vista a importância que tem Marighella na quadra histórica da última ditadura, mas também devido à sua movimentada trajetória, desde os anos estudantis, até sua longa passagem como militante e dirigente do Partido Comunista Brasileiro (PCB).
* Publicado originalmente em Le Monde Diplomatique Brasil.
** Carlos Zacarias de Sena Júnior é professor do Departamento de História e do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal da Bahia (UFBA).
Deixe um comentário