Interseccionalidade no Brasil, revisitando as que vieram antes
Autor: Emanuelle Goes*
Publicado em: 16 de outubro de 2019
Atualizado em: 5 de janeiro de 2022
Feministas negras brasileiras aplicam a interseccionalidade mesmo antes do seu conceito ter ganhado vida pelas mãos de Kimberlé Crenshaw, denunciando a ausência das mulheres negras nas agendas políticas do movimento de mulheres e do movimento negro e além de evidenciar que as mulheres negras estão sempre em situação de desvantagem quando comparadas às mulheres brancas e aos homens negros e brancos, tais situações eram descritas como múltiplas discriminações, dupla discriminação, tripla discriminação, mosaicos, e agora definimos o tal fenômeno como interseccionalidade.
A estadunidense feminista negra Kimberlé Crenshaw (2002) conceituou interseccionalidade como uma associação de sistemas múltiplos de subordinação, sendo descrita de várias formas como discriminação composta, cargas múltiplas, como dupla ou tripla discriminação, que concentra problemas e busca capturar as consequências estruturais de dinâmicas da interação entre dois ou mais eixos da subordinação. Além disso, a interseccionalidade trata da forma como ações e políticas específicas geram opressões que fluem ao longo de tais eixos, constituindo aspectos dinâmicos ou ativos do desempoderamento.
Trago algumas intelectuais negras brasileiras para dialogar comigo sobre o conceito interseccionalidade no contexto nacional. É por meio da lente de Lélia Gonzalez, Luiza Bairros, Sueli Carneiro, Jurema Werneck, Angela Figueiredo que meu olhar se amplia no sentido de evidenciar as interações do racismo, do sexismo e outras opressões correlatas e suas intensidades nas trajetórias de vida das mulheres negras brasileiras.
Início com o artigo “Racismo e Sexismo na Cultura Brasileira” (1983), de Lélia Gonzalez, que nos apresenta o lugar da mulher negra que vivencia os atravessamentos do racismo e do sexismo. “O lugar em que nos situamos determinará nossa interpretação sobre o duplo fenômeno do racismo e do sexismo”. Lélia destaca que o racismo se constitui como a sintomática que caracteriza a neurose cultural brasileira e sua articulação com o sexismo produz efeitos violentos sobre a mulher negra em particular. Em sua análise ela vai discorrer sobre as mulheres negras em relação às noções de mulata, doméstica e mãe preta na sociedade brasileira, que são invocadas para definir a mulher negra a depender do contexto em que somos percebidas. Desta forma Lélia antecede o que chamamos de interseccionalidade, ao traçar as experiências das mulheres negras na conjugação das opressões.
Em “Nossos Feminismos Revisitados”, Luiza Bairros (1995) anuncia que a experiência da opressão sexista é dada pela posição que as mulheres ocupam numa matriz de dominação, na qual raça, gênero e classe social interceptam-se em diferentes pontos, pois se configuram mutuamente, formando um mosaico, que só pode ser entendido em sua multidimensionalidade. No artigo, Luiza Bairros questiona sobre o racismo e o sexismo estruturados na sociedade que é atravessada por profundas desigualdades sociais, sendo uma questão recorrente não resolvida em totalidade nos “vários feminismos que interpretam a opressão sexista com base num diferenciado espectro teórico político-ideológico de onde o movimento feminista emergiu”, ela ainda questiona o pensamento feminista que tenta definir a mulher com base em experiências tidas como universais.
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* Enfermeira, Doutora em Saúde Pública (ISC/UFBA) e blogueira do População Negra e Saúde.
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