Interrogações sobre o fator Janot e o desfecho do Governo Temer: entre uma faxina moral e a solução da crise política
Autor: Paulo Fábio Dantas Neto
Publicado em: 29 de maio de 2017
Atualizado em: 21 de dezembro de 2021
O balanço dos 44 anos durante os quais a política tem sido o centro das minhas atenções, antes de militante e político, depois de estudioso e professor, permite-me o recurso luxuoso à nostalgia. Por outro lado, recusa-me o direito à ingenuidade. Por essa razão não compartilho celebrações (nem as de boa-fé) que se fazem diante dos fatos e factoides que vieram a público no, a meu ver, factualmente obscuro e politicamente obscurantista dia 17 de maio de 2017.
Pessoas e grupos crentes no advento de uma nova era, isenta de corrupção política, que já se misturavam (por apoliticismo, mais do que por afinidade) a outras pessoas e grupos nostálgicos da ditadura em protestos de rua e nas redes sociais desde 2014/2015, hoje já concordam pontualmente, na rejeição ao Governo Temer, com aquelas pessoas e grupos esperançosos de um retorno ao status quo político superado pelo impeachment de Dilma Rousseff. Formou-se, por acidente, ou não tanto assim, curiosa coalizão de veto ao esforço pacificador do governo de transição. E na hora em que o governo balança e, a princípio, migra, de súbito, de um momento de consolidação para uma crise que pode ser terminal, afinidades eletivas entre os dois polos da escalada de radicalização política que persiste há três anos no país fazem ecoar o “Fora Temer” como se fosse um clamor nacional. Clamam estridentemente os que na esquerda gostariam de revogar a Lava-Jato, mesmo sabendo que a queda do governo, se ocorrer, será obra, não da oposição de esquerda ou de movimentos sociais, mas da força daquela operação. Alimentam o mesmo bordão, embora com menos alarido e convicção, antipetistas e antilulistas seguidores exaltados da Lava-Jato, mesmo vendo que a queda do governo abre brecha para os “inimigos” voltarem ao jogo do poder que lhes parecia inalcançável após as delações das primeiras semanas desse maio meio agosto.
Na contramão desse coro excêntrico, persuade-me a ideia de que o virtual fim do governo parlamentar, que talvez esteja consumado (ou quase) quando esse texto for publicado, expressa uma derrota da política. Como tal representará, para além da queda de um governo impopular, um obstáculo à reconstrução do centro político democrático, obra complexa que seguia curso sinuoso desde o ano passado, após sua destruição durante a guerra pelo controle do Estado, travada a partir da eleição presidencial de 2014.
Tornou-se lugar comum dizer que a sociedade brasileira está dividida de modo radical entre duas posições políticas, como numa disputa entre torcidas fanáticas. Para alguns mais ligados em jargões teórico-políticos, é direita x esquerda, elite x povo ou neoliberalismo x política social. Em redes sociais há traduções ainda mais simplórias dessa narrativa, como confronto indigesto entre “coxinhas” e “mortadelas”, ou duelo pessoal entre Moro e Lula. Esses modos de exprimir a mesma coisa refletem um “modo de pensar” de claques mais ou menos organizadas e de pessoas fidelizadas por algum tipo de dogma, carisma, ou tabu. Identificar isso com a percepção do povo, ou mesmo do eleitorado, é no mínimo um exagero e, no fundo, uma mistificação. Quem usa de boa vontade para olhar e escutar além do seu redor, de prudência para avaliar o que vê e ouve e de autonomia para pensar com a própria cabeça repara que enquanto as brigas de torcida se acirram, mais pessoas “comuns” delas tomam distância e anseiam por uma solução conciliadora da crise política. Esse tipo de saída permite tratar de problemas públicos sem comprometer, como se tem feito, relações profissionais, de vizinhança e amizade e até o convívio em ambientes familiares. A recusa ao espírito de claque não é necessariamente uma atitude política “alienada”. Compartilham-na pessoas que possuem variados níveis de instrução formal, informação e compromisso político. Penso que é o terreno social sobre o qual se pode reconstruir um centro democrático no Brasil.
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