Grito e dor
Autor: Isabella Queiroz*
Publicado em: 17 de agosto de 2020
Atualizado em: 6 de janeiro de 2022
Minhas narinas habituaram-se ao mofo
Minha casa fechada, sem amigos, sem minha família, sem meus filhos…
Tento uma assepsia vã…
Sigo inutilmente isolada, acreditando salvar-me,
acreditando salvar aos meus concidadãos.
As ruas cheias…
Homens máquinas…
Sinto-me só e ingênua nesse intento.
Não sei lutar com genocidas!
Não alcanço as armadilhas do meu algoz.
Embruteceram o mundo!!!
Onde, a perplexidade?
Perdeu-se nos meandros dos engodos anunciados?
100.000 mortos e não deixam ver as lágrimas derramadas!
Quantos corpos, chorados em cantos fechados!
Estrada comprida, mórbida:
150.000 metros de puro desalento!
Onde nos levará essa rota de horrores?
Não sei o mundo que nos espera.
Não sei dos leitos dos hospitais…
dos incógnitas que ofertam o cuidado;
já exaustos com rostos e corpos escondidos…
seguem na árdua tarefa de acreditar na vida.
E se expõem…
E sofrem…
Endureceram?
Oh!
São aniquilamentos diários…
Quanto desamparo!!!
Queria dar-lhes a mão…
Quantas dores silenciadas!
Há que haver um grito!
O grito puro da vida,
que faça esvair a indecência que incrustaram no peito.
Essa dor com que nos marcaram esses torpes homens de gravata.
Há que existir o grito,
que faça se esvair a indiferença, a crudelidade…
Há que existir o grito, que clame por irmandade, humanidade.
Há que existir o grito que reclame de volta a dignidade, ainda que beire à utopia.
Pela falta de humanidade dos genocidas, diante dos que se foram.
Acesse aqui em pdf.
*Doutora em Medicina e Saúde Humana, psicóloga /psicanalista, professora do Mestrado Profissional em Psicologia e Intervenções em Saúde/EBMSP, professora adjunta da Faculdade de Psicologia/EBMSP, psicóloga do Serviço de Referência em Triagem Neonatal.
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