Feministas, Graças às Deusas!*

Autor: Paloma Silveira*
Publicado em: 23 de outubro de 2020
Atualizado em: 7 de janeiro de 2022

Nas últimas semanas assistimos estarrecides o desenrolar do processo de contratação de Robinho pelo Santos. Time que lançou em maio uma campanha de combate à violência contra as mulheres (G1, 2020), pareceu não se importar muito em contratar um jogador condenado por estupro na Itália, ainda que caibam recursos. Patrocinadores ameaçaram e outros retiraram os patrocínios. Mulheres organizadas se manifestaram de diferentes formas, repudiando a contratação. Espaços da mídia hegemônica e das redes sociais polvorosos e indignados diante de mais este descaso com a vida das mulheres.

Sabemos que o futebol além de racista, é machista. Casos de jogadores envolvidos em situações de violência contra as mulheres são frequentemente noticiados. Apesar disso, pouco tem sido feito, na verdade, o quase nada de sempre. Em geral, há a minimização dos casos e jogadores, comissão técnica, entidades representativas e parcelas da sociedade civil fazem aquela conhecida “brodagem”. Saem em defesa do agressor, que acaba se tornando até uma vítima, afinal, “é um cidadão de bem”, “tem família, mulher e filhos”, “o cara não é assim, tem Deus no coração” e é “trabalhador”. Alguns pedidos de desculpas, retratações, também são realizados, às vezes com choros e, pasmem, mais culpabilizações das mulheres.

Toda essa situação nada episódica, o Brasil é um dos piores países do mundo para as meninas nascerem como apontou um relatório divulgado em 2017 (THEMIS, 2017), retrata bem a nossa sociedade e seus valores. Não é difícil imaginar quantas pessoas já se omitiram em diferentes situações em que os machismos foram percebidos ou mesmo escancarados. Tudo parece se tornar mais fácil de digerir, perdoável, quando se relaciona àquele “broder”, ao pai, mãe, parceire, à família e aos “chegades”. Os limites éticos vão sendo alargados, na medida em que os problemas são atravessados pelas afetividades que nos são caras. Fazemos vista grossa. Silenciamos.

 

Leia aqui o texto na íntegra.

 

*Parafraseando o título do livro de Zélia Gattai – Anarquistas, Graças a Deus.
*Dedico este texto a todas as mulheres.
**Mulher cis, heterossexual, reconhecida socialmente como branca, professora, psicóloga e às vezes artista. Mestra em Psicologia pela UFPE e Doutora em Saúde Coletiva pelo ISC/UFBA.
**Agradeço a Gurgel pelas possibilidades de pensar e realizar outros mundos, de lutar e sonhar. Que estas estejam sempre envoltas pelas constâncias da reflexividade e da busca pelos afetos mais libertários.





Deixe um comentário







Instituto de Saúde Coletiva • Universidade Federal da Bahia • Rua Basílio da Gama, s/n • Campus Universitário do Canela • 40.110-040 • Salvador-Bahia • +55 71 3283-7441 / 3283-7468

© 2024 Observatório de Análise Política em Saúde. Todos os direitos reservados.