Escuta, Zé Ninguém*

Autor: Aécio Gomes de Matos**
Publicado em: 8 de maio de 2019
Atualizado em: 7 de janeiro de 2022

A crise institucional que se vive no Brasil tem deixado todo mundo meio abasbacado, uns sem ter muito o que dizer face à incongruência das situações, outros com muita certeza de suas verdades. Neste contexto, que já dura alguns anos, estremecem as instituições. E até mesmo o convívio entre amigos e familiares tem sido afetado seriamente pela intolerância.

Não se pode negar que estamos em uma crescente crise institucional, que afeta inclusive os poderes da República, contrapondo o Executivo, o Legislativo e o Judiciário. Isso tem repercutido na falta de crença e de adesão da própria população às mais simples regras da vida social, aos direitos e deveres vigentes na Constituição e nas normas da República. As queixas pela falta de acesso aos serviços públicos fundamentais e pelo descumprimento sistemático dos papéis institucionalizados das estruturas de governo deixam todo mundo a ver navios, descrente e sem energia para ações proativas. Indivíduos isolados e submetidos às cúpulas dominantes.

Nesta perspectiva, lembro aqui o conceito estabelecido por Wilhelm Reich, no seu livro Escuta, Zé Ninguém (1946), instigado pela sua experiência pessoal nos anos trinta daquele século. Com este título depreciativo, ele procura interpretar a situação do cidadão comum diante das garras do nazismo e do comunismo. Dá ênfase aos processos de manipulação das massas através da ideologia e do culto à personalidade, em contraposição à postura revolucionária para entender cada indivíduo e cada grupo social como sujeitos de suas próprias histórias. Ele mesmo sofreu as consequências de sua autonomia de pensamento crítico: foi perseguido em países de regime totalitário como Alemanha e Rússia, que se consideravam antiliberais, e morreu preso nos Estados Unidos, em 1957, reino do liberalismo.

O argumento central de Reich é que a pessoa comum, o “Zé Ninguém”, ao procurar proteção para sua própria vida, termina prisioneira dos poderosos, sejam governantes, ideólogos, religiosos, que determinam o que é a verdade, quais são as regras de sobrevivência e as condições de realização e crescimento pessoal. Nesta direção, a sociedade se funda num grande número de pessoas que seguem os ditames de minorias poderosas, cujo poder lhes é conferido por processos de difusão publicitária, que implicam em identificação inconsciente com essas figuras salvadoras. Reich fala ao homem comum: “Ergueste tu próprio os teus tiranos e és tu quem os alimenta”.

 

Clique aqui para ler o texto na íntegra.

 

 

* Texto publicado originalmente na Revista Será.
** Engenheiro, doutorado em Psicologia, pós-doutorado em Sociologia, consultor em Engenharia Industrial (anos 70) e depois em processos sociais, organizacionais e comunitários. Professor e pesquisador em psicologia e sociologia na UFPE desde 1991. É membro do Movimento Ética e Democracia. E-mail: aeciomatos@uol.com.br.





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