Epistemologia em Saúde Coletiva na América Latina: questões do Brasil de uma perspectiva histórica*

Autor: Lilia Blima Schraiber**
Publicado em: 6 de agosto de 2018
Atualizado em: 6 de janeiro de 2022

Vou tratar da Epistemologia em Saúde Coletiva baseada na experiência brasileira, a que pude acompanhar desde o início dos anos 1970.

 

Creio que há algumas particularidades no caso brasileiro, mas o que apresentarei cabe também a outras experiências, que em seus movimentos de criar uma Saúde Coletiva, também criticaram os paradigmas da produção científica e a racionalidade das ações em saúde originários da medicina biomédica moderna, ligada à reprodução da desigualdade social.

 

Primeiro, é muito bem vindo o debate sobre ‘Epistemologia’ frente às questões atuais da Saúde Coletiva no Brasil. Não porque seja um tema novo, até ao contrário. Mas porque quero recolocar a questão do político na produção científica dos conhecimentos e estimular nossa reflexão nesse sentido. E chamo já a atenção para este ‘nossa reflexão’ porque me incluo nessa necessidade, até a partir de minha própria experiência com a insuficiência de categorias empíricas para tratar, por exemplo, da questão de gênero nas práticas de saúde, tema com que me envolvi mais recentemente. Digo isto, pois, tendo sido bastante tratado o social com base em indicadores socioeconômicos, me vi frente à insuficiência deles para explicar desigualdades de gênero, e sobretudo a violência de gênero, cuja interpretação ou explicação remete mais ao sociocultural, atravessando os estratos socioeconômicos nas situações vividas, concretas e particulares. Assim, ao apenas repetir em novas pesquisa indicadores habituais do social, quero refletir sobre essa espécie de automatismo que assumimos em situações que parecem já instituídas, consolidadas, como seria o caso de sempre mantermos a representação do social em nossos estudos como algo já dado por sua dimensão econômica. E isso ocorre pela ausência exatamente da reflexão sobre o significado não só de tomarmos o social em nossas pesquisas científicas, mas de compreendermos as razões pelas quais, no processo de institucionalização da Saúde Coletiva, incluir o social, e da forma como foi incluído, foi relevante para sua proposta histórica e o projeto de sua implantação.

 

Na Saúde Coletiva brasileira nota-se crescente presença de ativismos em prol dos Direitos Sociais, da maior equidade em saúde em pesquisas ou intervenções subsequentes nos serviços de saúde. Muitas vezes a própria investigação confunde-se com o ativismo e com essas intervenções, na comunidade, nos territórios e nos serviços.

 

Afinal, diante das crises não só política ou econômica, mas ética e moral, que hoje experimentamos no Brasil, a Saúde Coletiva representa a possibilidade de persistirmos no projeto de uma sociedade democrática e mais inclusiva; de uma sociedade do bem estar e da defesa de um sistema de saúde como o Sistema Único de Saúde (SUS).

 

Mas creio que a reflexão sobre essas questões deva também alcançar a produção científica. Para tanto, proponho revisitarmos a construção do pensamento que caracterizou a Saúde Coletiva em sua origem e que tenho qualificado como um ‘pensamento crítico’ em Saúde. Nele poderemos resgatar o movimento contra- hegemônico feito quando do nascimento social da Saúde Coletiva. E em nova reflexão, observarmos o que se pretendeu e como se processou a articulação ali realizada entre o social e as dimensões técnico-científicas da saúde.

 

*Fala proferida na mesa redonda MR110 Epistemologia em Saúde Coletiva na América Latina, no 12º Congresso Brasileiro de Saúde Coletiva, no Rio de Janeiro/RJ, em 29/07/2018.
**Doutora em Medicina Preventiva pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP).

 

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