É papel da ciência questionar o poder (e tudo o mais)

Autor: João de Deus Barreto, Ana Paula de Oliveira Villalobos, Luis Cláudio Correia
Publicado em: 18 de junho de 2019
Atualizado em: 5 de janeiro de 2022

EVIDENCE é uma comunidade de pesquisadores comprometidos com a promoção da integridade científica, de políticas públicas e de tomada de decisões baseadas em evidências. Diante disto, quando identificamos má condutas científicas, somos moralmente compelidos a montar uma defesa dos fatos, das evidências e da própria ciência.

Infelizmente, chegamos à era das notícias falsas e dos fatos alternativos (que é em si um oxímoro! Algo é factual ou não. Ponto!). É uma época em que presidentes e ministros de Estado se apropriam das glórias alheias ou inventam glórias ficcionais sem nenhum sinal de culpa ou constrangimento. É também uma época em que os líderes mundiais reduzem os orçamentos de ciência, tecnologia e educação e manipulam fatos e consensos científicos para promover agendas políticas (1), descartando qualquer evidência que seja considerada inadequada às suas ideologias. Desde movimentos orquestrados a fim de corroer os direitos sexuais e reprodutivos das mulheres e desmontar os estudos de gênero (2-3), a um presidente que emprega publicamente insultos para se referir a estudantes e professores que se recusam a desistir de educação e pesquisa financiadas com recursos públicos (4). É um admirável mundo novo que se aproxima da distopia.

Essa nova ideologia política cobre-se de um verniz de autoridade científica e apresenta evidências frágeis ou obscuras para justificar políticas que não fazem sentido algum. Ela parece recusar a integridade científica. O discurso de Melania Trump na Convenção Nacional do Partido Republicano de 2016 em Ohio, Estados Unidos, não prejudicou a reputação de seu marido nem a dela, apesar de ter sido, com obviedade, plagiado do discurso de Michelle Obama na Convenção Nacional do Partido Democrata oito anos antes (5), conforme analisado através do software iThenticate de detecção de plágio pela Turnitin, empresa fornecedora do programa. O plágio não teve nenhum impacto na campanha deles.

No Brasil, cinco meses após a posse do novo presidente, um ministro de Estado também foi pego em flagrante cometendo plágio (6). O recém-nomeado ministro da Educação, Abraham Weintraub, tem mestrado em administração e lista quatro artigos publicados em seu currículo público oficial na Plataforma Lattes. Sua última atualização de currículo aconteceu em março de 2017 (7). Mas, caso se procure o nome dele nos periódicos que ele lista, pode-se observar que ele publicou dois artigos duas vezes em dois periódicos distintos, conforme análise pelo software gratuito de detecção de plágio CopySpider. Então, ele publicou cinco artigos, mas dois são duplicatas um do outro e a única coisa que os dois periódicos responsáveis por todo o seu histórico de publicação têm em comum é que seu irmão Arthur Weintraub atua nos respectivos conselhos editoriais de cada um.

Às evidências: o primeiro artigo de Abraham Weintraub foi publicado em novembro de 2012 na Revista Brasileira de Previdência (de acordo com a data de aceite disponibilizada no respectivo PDF). Intitulado “The good, the bad and the ugly: mutual funds and private pension funds industry, who gets the lion’s share: government, asset managers or clients?”, o artigo, de acordo com o relatório do CopySpider, é parte da tese de mestrado de Weintraub. Apresenta 10,39% de similaridade com a tese, o que corresponde a originalidade pelos padrões editoriais científicos.

 

Clique aqui para ler o artigo na íntegra.

 

*Artigo publicado originalmente em Journal of Evidence-Based Healthcare (https://www5.bahiana.edu.br/index.php/evidence).





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