‘E daí?’: respostas à pandemia e gestão da morte no Brasil*

Autor: Mariana Thorstensen Possas, Andrija Oliveira Almeida, Karla Matias
Publicado em: 16 de julho de 2020
Atualizado em: 6 de janeiro de 2022

Na experiência política brasileira contemporânea a morte ocupa um lugar central nos discursos e ações oficiais em escala federal. Observamos uma mudança importante nos últimos anos nos sentidos atribuídos às mortes dos cidadãos, especialmente aquelas diretamente relacionadas a decisões políticas. De evento a ser evitado e, uma vez ocorrido, disfarçado, a morte passa a ser um desfecho moralmente neutro (“Mortes acontecem”) ou positivo (“Se morreu é porque merecia”). Esse fenômeno, identificado por alguns como “necropolítica”, já foi tratado de maneira diferente por vários autores (MBEMBE, 2016; AGAMBEM, 2011), inclusive no Brasil, onde assume características específicas (LEITE, 2020). A discussão centrada na necropolítica explicita e analisa a dimensão do poder em relação à morte, ou seja, do poder de dizer quem pode viver e quem deve morrer.

Neste texto, propomos um olhar específico sobre o fenômeno atual da “política da morte” e um destaque aos sentidos atribuídos nas comunicações políticas (LUHMANN, 1971) atuais. O que nos interessa aqui é pensar como as mortes são apresentadas e justificadas oficialmente e, ao mesmo tempo, desconstruídas como um problema de ordem pública. Esse olhar tem como ponto de partida o deslocamento da morte da posição de categoria periférica do discurso político para o de categoria central, de indicador negativo na avaliação de decisões políticas para indicador neutro ou positivo. Observamos no Brasil um processo semântico-decisional curioso de valorização da morte como evento e de desvalorização dos mecanismos de combate ou redução de resultados fatais.

 

Leia aqui a análise na íntegra.

 

*Texto originalmente publicado em 13/07/2020 na DILEMAS: Revista de Estudos de Conflito e Controle Social.

 

1Professora do Departamento de Sociologia, do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais (PPGCS) e do Mestrado Profissional em Segurança Pública, Justiça e Cidadania (MPSPJC) da Universidade Federal da Bahia (UFBA, Salvador, Brasil) e uma das coordenadoras do Laboratório de Estudos sobre Crime e Sociedade (Lassos), da UFBA. É doutora em Criminologia pela Universidade de Ottawa (uOttawa, Ottawa, Canadá). E-mail: marianapossas@gmail.com

 

2Doutoranda em Ciências Sociais (PPGCS/UFBA), mestre em Saúde Comunitária (ISC/UFBA), pesquisadora do Laboratório de Estudos sobre Crime e Sociedade (Lassos/UFBA), professora do Mestrado Profissional em Segurança Pública, Justiça e Cidadania (MPSPJC/UFBA). E-mail: andrija.oliveiraalmeida@gmail.com

 

3Pesquisadora independente em direitos humanos. Tem mestrado em Políticas Públicas pela uOttawa. E-mail: karlamatias77@gmail.com





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