Dois para a frente, dois para trás

Autor: Rui Abreu
Publicado em: 8 de janeiro de 2025
Atualizado em: 17 de fevereiro de 2025

2024 terminou aquecido pela prisão de um general golpista de quatro estrelas e a discussão política sobre o pacote de corte de gastos. Também o mercado fez saber através de seus braços falantes (mídia corporativa) que sua tolerância de início de mandato (ampliado pela tentativa de golpe neofascista) tinha terminado.

Canais de TV, jornais e portais vocalizaram seus patrões dando continuação ao caminho golpista começado em 2016, exigindo agora a um líder identificado com a esquerda a prossecução de políticas neoliberais. Fernando Haddad alimentou a voracidade dos vampiros apresentando um pacote que castiga a população mais pobre, a base social e política do presidente Lula, o que motivou forte contestação na esquerda e não satisfez o nunca saciável mercado.

Muito menos que uma alusão à obra crítica de Lênin sobre os mencheviques, este nanocontributo de título provocador atenta-se ao momento de meio de mandato de quatro anos da governação Lula, seus acertos, equívocos e o sentido da governação.

Recordar é entender

Por falta de engenho ou porque o percurso da história não lhes confere atualidade, são raros os discursos ou citações que têm a capacidade de nos revisitar, mas há uma que tem ecoado na sociedade brasileira desde que foi proferida em 31 de Agosto de 2016. Refiro-me obviamente ao discurso pós impeachment de Dilma Rousseff em que uma passagem em particular tem sido nota de rodapé da história recente do Brasil: “O golpe é contra o povo e contra a nação”.

O golpe começado em 2016 e que continua até hoje visa transferir renda do trabalho para o capital, ancorando constitucional e legislativamente um modelo cada vez mais neoliberal. Após três mandatos e meio de governações petistas, as elites nacionais e internacionais decidiram que era hora de acelerar a exploração sobre o povo brasileiro, colocando trilhões de reais cativados a políticas sociais, empresas públicas e salários à disposição dos insatisfeitos mercados. A drenagem de recursos da economia brasileira para os bilionários atingia um novo patamar. O banquete dos vampiros tinha mais uma vez lugar.

Logo após o impeachment, o governo de Michel Temer, levando o golpismo à prática, balizou com a P.E.C. do Teto de Gastos a capacidade do Estado executar programas sociais, prover serviços e realizar investimento público. Continuou com a reforma trabalhista que desequilibrou ainda mais as relações de produção criando um mar de precariedade onde horários, salários, planos de carreira e vínculos são cilindrados, disponibilizando para o capital mais uma fatia de riqueza que cabia aos/às trabalhadores/as.

Também a reforma do ensino médio abriu mais mercado na educação e pavimentou a disputa pelo futuro educativo e social, em que a extrema direita é o porta estandarte do atraso, enquanto o capital ocupa mais espaço num setor estratégico da economia e sociedade. Iniciou a reforma da previdência que foi aprovada em novembro de 2019, já no governo de Jair Bolsonaro. Trabalhar com menos condições por mais tempo foram metas perseguidas e alcançadas pelos governos golpistas. Atrelou o preço dos combustíveis ao mercado internacional garantindo lucros astronômicos para os acionistas à conta do esforço do povo brasileiro.
Paulo Guedes dinamitou o funcionalismo público e promoveu a pobreza generalizada da população. A privatização de empresas de setores estratégicos acelerou. Petrobras, Eletrobras e outras empresas de energia engrandeceram o menu dos bilionários, também empresas de abastecimento de água, tratamento de esgotos e de outros serviços públicos foram para as mãos de privados. A santa aliança entre o agro extrativismo e a finança ganhou corpo em recursos públicos cada vez maiores, em lucros cada vez mais dilatados. De 2016 a 2021 a participação dos salários no P.I.B. caiu 13%, passando de 35% para 31% enquanto a participação dos lucros subia de 32,3% para 37,5%.

Enquanto o povo empobrecia aceleradamente, devolvendo o Brasil ao mapa da fome, chegando metade da sua população a um quadro de algum nível de insegurança alimentar, os lucros da banca e agronegócio iam às alturas, os bilionários brasileiros e outros entraram ou subiram na lista Forbes, a Petrobras foi a empresa que mais dividendos distribuiu aos seus acionistas no mundo inteiro. Os vampiros refastelaram-se!

Mas nenhuma destas medidas seria novidade, afinal o golpe promovido pelos bilionários nacionais e internacionais “…era contra o povo, contra a nação”. Os atores e atrizes também eram sobejamente conhecidas assim como a arquitetura institucional golpista (com supremo, com tudo), a mesma que Bolsonaro viria a questionar tentando um golpe dentro do golpe. E foi num quadro de instabilidade econômica para quem trabalha e institucional para quem dirige que chegamos às eleições de 2022, desta feita sem a prisão injustificada de Lula. A esperança de um povo esmagado pareceu voltar com a liberdade de Lula disputar as eleições. Era preciso fazer o L para mudar o rumo entreguista e de empobrecimento da população que a economia tomava, era preciso fazer o L para conter o rumo fascista que a política tomava. E o povo esperançado em derrotar o golpe fez o L.

*Publicado originalmente em A Terra é Redonda.





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