Discursos de Lula e Trump refletiram visões opostas sobre o futuro da ordem internacional
Autor: Alexandre Ramos Coelho
Publicado em: 1 de outubro de 2025
Atualizado em: 31 de outubro de 2025
Um dos aspectos mais relevantes evidenciados por uma análise dos discursos do norte-americano Donald Trump e do brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva, ambos na Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas, em setembro, é que as falas configuram dois mapas para o mundo. Um verdadeiro espelhamento de visões sobre o sistema internacional.
A fala do presidente Lula, no dia 22, representou uma intervenção de grande impacto no cenário internacional, ao recolocar a democracia, o multilateralismo e o desenvolvimento sustentável no centro do debate global.
O discurso foi dirigido a todas as nações — grandes potências, potências médias ou regionais, desenvolvidas ou em desenvolvimento, do Sul ou do Norte Global, seja qual definição se adote — sublinhando que os desafios contemporâneos transcendem fronteiras e exigem respostas coletivas
Ao enfatizar tanto a defesa de princípios universais como a necessidade de uma autocrítica democrática diante do avanço da extrema-direita, Lula projetou uma mensagem que dialoga simultaneamente com os dilemas internos das sociedades e com a arquitetura internacional. A recepção positiva por parte de diversos líderes mundiais indica que sua intervenção encontrou ressonância em um momento de crise de legitimidade das instituições multilaterais e de crescente fragmentação da ordem mundial.
Trump, por sua vez, reafirma uma leitura próxima ao Realismo, em que o mundo é marcado pela anarquia, pela desconfiança entre Estados e pela competição permanente por poder. Ao mesmo tempo, seu discurso incorpora elementos da geoeconomia: tarifas, sanções e restrições deixam de ser medidas de regulação de mercado e passam a ser usadas como instrumentos de pressão política com fins geopolíticos — isto é, para influenciar o comportamento de outros países e preservar a hierarquia internacional.
Esse nacionalismo econômico se materializa em episódios concretos, como a imposição de tarifas de 50% sobre produtos brasileiros, afetando até 36% das exportações do país para os Estados Unidos. A medida evidencia como instrumentos comerciais, que em princípio deveriam servir à proteção da indústria doméstica, foram empregados como mecanismos de pressão política e de contenção de parceiros e rivais, reforçando a lógica de demonstração de força. Outro exemplo é a guerra comercial com a China, marcada pela imposição de tarifas bilaterais em larga escala, ou ainda as restrições impostas ao acesso chinês a semicondutores e tecnologias de ponta.
Cooperação em cenários de rivalidade
Todos esses episódios revelam a economia transformada em extensão do poder geopolítico, utilizada não apenas para assegurar vantagens econômicas, mas também como instrumento de coerção. Em última instância, trata-se de um Realismo fortalecido pela lógica geoeconômica: o uso deliberado de tarifas, sanções e controles tecnológicos como armas políticas e militares destinadas a preservar a posição norte-americana, mesmo que impondo custos a aliados e tensionando cadeias globais de valor.
Lula, por sua vez, apresenta uma visão quase oposta, mais próxima ao Liberalismo. Ao defender a ONU, a democracia e a sociedade civil organizada como pilares da vida internacional, ele sugere que problemas globais — como desigualdade, mudanças climáticas, fome ou regulação do espaço digital — não podem ser enfrentados pela lógica da soma zero, mas apenas por meio de soluções coletivas.
Este artigo foi republicado do portal The Conversation sob uma licença Creative Commons. Leia o artigo original.
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