Despolarização política: possibilidades estratégicas de uma tática ameaçada

Autor: Paulo Fábio Dantas Neto*
Publicado em: 30 de abril de 2020
Atualizado em: 7 de janeiro de 2022

Com a pandemia, John Maynard Keynes voltou à voga em economia. Mas seu chiste pragmático de que “a longo prazo todos estaremos mortos” tem estado no radar da elite política brasileira. Tome-se o Congresso e governos estaduais como palcos e será visto como a elite política, atacada por um senso comum que a condena por seus vícios e por suas virtudes, entrega-se a manobras táticas defensivas e habilmente as converte em contraofensivas. Essas devolvem-lhe algum poder de iniciativa, usado para tomar certas decisões racionais e socialmente positivas, como tem ficado evidente durante as crises que atravessamos. Partindo dessa performance tática, lideranças políticas, ocupando posições institucionais chave, têm conseguido livrar o país de se converter num quintal de milicianos e recuperar, embora em dose ainda pequena, uma reputação mais razoável, que tinha sido quase completamente varrida pela sucessão de seus erros e pela captura do ambiente político pelo fundamentalismo lavajatista. Sem, de modo algum, pretender fazer reparo a essa conduta tática, é possível esperar que a ela se junte alguma perspectiva estratégica, aquela que for possível num contexto tão volátil.

Algumas linhas do que pode ser essa adição tonificadora são derivadas lógicas da tática prudencial que se tem adotado, especialmente na Câmara dos Deputados, não só por seu presidente e alguns dos líderes partidários. Exemplifica prudência, também, a chegada à cena política de jovens parlamentares eleitos acenando a uma “nova política” e que logo se distinguiram da demagogia rasteira que se apossou dessa ideia. São pessoas, mulheres e homens, algumas muito jovens, que têm compreendido, na prática, a dignidade e a eficácia da tradição do trabalho parlamentar para cumprir compromissos assumidos com os eleitores. Nota-se também a crescente musculação política do presidente do Senado, um neófito alçado ao cargo pela onda de descrédito da chamada “velha  política”. Também se pode interpretar como prudenciais a guinada ao centro do governador de São Paulo, a atuação do prefeito paulistano, cujo espírito público supera limites da sua saúde pessoal, discurso e ação qualificados do governador gaúcho e a cooperação de governadores nordestinos de esquerda na articulação federativa liderada pelo adversário Dória. Até a moderação surpreendente – ainda que possa ser um estado febril efêmero – que acomete o do Rio de Janeiro pode ser creditada a esse contexto em que a despolarização política responde a um desafio sanitário e econômico. Para não falar na genuína atitude prudencial encarnada pelo ex-ministro da Saúde, Luiz Mandetta. Ele foi o protagonista de uma política pública emergencial, concebida e amparada, com forte respaldo técnico, no valor da solidariedade social e conduzida de modo politicamente articulado com demais entes federativos e sociedade civil. Um fluxo de informação diária, transparente e qualificada gerou amplo apoio popular. Exonerado, Mandetta saiu sem atirar. Isso agravou o isolamento do presidente e não reverteu a despolarização que a política pública semeara.

 

São exemplos embrionários, diversos e distintos, de um promissor processo regenerativo da política brasileira, pelo qual ela retoma seu espaço, miseravelmente usurpado, desde 2014, por uma associação destrutiva de ideologia e distopia. Isso tem relevância estratégica para quem busca uma saída política para a crise política atual. Saída que signifique opção pela democracia, não apenas em oposição a formas aberrantes de autocracia, ditadura, fascismo, etc.., mas como algo também muito distinto de uma guardiania, seja ela judicial, militar, tecnocrática, ou qualquer outra.  

 

Leia aqui a análise na íntegra.

 

Este texto é um extrato atualizado dos tópicos conclusivos de texto publicado na página “Esquerda Democrática”, no Facebook.

*Cientista político e professor da UFBa. E-mail: pfabio@ufba.br





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