Desconstrução de mitos na medicina: história da saúde mostra discriminação contra corpos negros

Autor: Eliza Toledo e Ilana Löwy
Publicado em: 22 de novembro de 2023
Atualizado em: 22 de novembro de 2023

Racismo? No Brasil? Quem foi que disse? Isso é coisa de americano. Aqui não tem diferença porque todo mundo é brasileiro acima de tudo, graças a Deus. Preto aqui é bem tratado, tem o mesmo direito que a gente tem”.

Em reflexão imprescindível, a filósofa e antropóloga Lélia Gonzalez analisava, em 1984, o racismo e o sexismo na cultura brasileira. Encoberto pelo mito da democracia e harmonia racial que até mesmo algumas vertentes historiográficas buscaram sustentar entre o século XIX e começo do século XX, o racismo em nossa história encontrou amparo também em correntes científicas.

Historicamente, neste mesmo recorte temporal, médicos e biólogos supunham que os corpos não brancos eram essencialmente diferentes dos brancos. Essa noção incluía elementos como uma suposta suscetibilidade diferente a patógenos, reação distinta à dor, e composição psicológica/cognitiva singular. Embora a versão forte dessa suposição seja geralmente negada hoje, sua versão mais fraca, com foco na “diversidade”, continua a moldar as decisões médicas. Além disso, se atualmente existe um amplo consenso de que não existem “raças humanas”, múltiplas formas de racismo e discriminação permanecem bem vivas e têm impactos sobre a saúde e o bem-estar da população “não branca”.

Práticas discriminatórias do passado e do presente

No curso “Raça, gênero e medicina: a diferença como ferramenta da discriminação”, ofertado na Casa de Oswaldo Cruz, estudamos as intersecções entre “raça” e medicina em uma perspectiva histórica e comparativa tendo como base um conjunto de leituras sobre as consequências da racialização e do racismo na saúde. Debatemos consequências da discriminação racial – legado da escravidão, do colonialismo e do neocolonialismo – para as condições socioeconômicas e psicológicas da população negra.

Uma das perspectivas abordadas em sala vem do conceito de “Weathering”, que são os efeitos combinados e cumulativos do racismo na saúde. Nele incluem-se os efeitos de condições de vida, tratamento diferenciado de pacientes e o efeito indireto do estresse na saúde. Tais efeitos são muitas vezes negligenciados por especialistas, que ignoram as consequências da inscrição de discriminações nos corpos e atribuem piores resultados de saúde em populações “não brancas” à hereditariedade, ao “estilo de vida pouco saudável” ou a ambos.

*Publicado originalmente no Observatório História e Saúde (OHS). 





Deixe um comentário







Instituto de Saúde Coletiva • Universidade Federal da Bahia • Rua Basílio da Gama, s/n • Campus Universitário do Canela • 40.110-040 • Salvador-Bahia • +55 71 3283-7441 / 3283-7468

© 2024 Observatório de Análise Política em Saúde. Todos os direitos reservados.