Desastres climáticos no verão não são mais surpresa: são o resultado da negligência política
Autor: Guilherme Tampieri e Samantha Costa
Publicado em: 11 de março de 2026
Atualizado em: 24 de abril de 2026
Chuvas torrenciais, alagamentos, deslizamentos, ondas de calor, escassez hídrica, escolas fechadas, cidades isoladas. Esse deixou de ser um retrato de exceção para se tornar parte do cotidiano brasileiro – especialmente durante o verão, estação historicamente marcada por maior variabilidade climática e que, sob o aquecimento global, passou a concentrar riscos cada vez mais intensos.
Um longínquo símbolo da crise climática, o urso polar, agora é cotidiano, simbolizado no cavalo caramelo, ilhado pelas enchentes do Rio Grande do Sul, em 2024, em cima da casa de uma família brasileira. O distante receio do aquecimento global rapidamente se transformou em medo das mudanças climáticas, com perda de bens, sonhos e da própria vida.
Pancadas de chuva e períodos de calor sempre fizeram parte do clima tropical. O que vem mudando é a frequência, a duração e a intensidade desses eventos, transformando variações sazonais em tragédias recorrentes, como as registradas em Petrópolis (2022), São Sebastião (2023), em várias cidades do Rio Grande do Sul (2024) e em outros tantos municípios amazônidas, entre 2023 e 2024.
Dados recentes do Climate Central reforçam a dimensão do problema. Mais de 127 milhões de pessoas no Brasil enfrentaram ao menos um dia de calor extremo nível 5 (quando a sensação térmica ultrapassa 44 °C) entre 14 e 20 de fevereiro de 2025. A ciência climática já demonstrou que eventos desse tipo se tornaram pelo menos cinco vezes mais prováveis devido às mudanças climáticas causadas pela ação humana.
Mas as consequências da crise climática não são iguais para todo mundo. São as populações de baixa renda, moradores de periferias urbanas, comunidades ribeirinhas e trabalhadores expostos ao ar livre que enfrentam primeiro e com mais intensidade os efeitos do calor extremo, das enchentes e das secas. A Estratégia Internacional das Nações Unidas para a Redução de Desastres (UNISDR) identificou que mulheres e crianças são 14 vezes mais propensas que homens a morrerem durante um desastre[1]. É preciso, então, dar maior atenção a estas populações.
Na Amazônia, a estiagem histórica dos últimos anos interrompeu a pesca, isolou comunidades e comprometeu o acesso a alimentos, transporte e direitos, como à educação. Avançando para o verão de 2026, bairros periféricos do Rio de Janeiro registraram sensação térmica próxima de 50 °C – um cenário que combina vulnerabilidade urbana com risco iminente de tempestades e deslizamentos.
Ou seja, temos dados e notícias suficientes para sustentar a necessidade de uma ação política antecipada. Porém, enquanto centenas de famílias são impactadas todo início de ano com os eventos climáticos extremos, os representantes políticos insistem em chamar o cenário de “desastre natural” ou mesmo “acidente”. Essa é uma conhecida tática, com objetivo de normalizar a situação e se eximirem da responsabilidade perante a prevenção do problema e das consequências.
Quando os impactos são previsíveis, a tragédia não decorre da natureza, mas da ausência de prevenção, planejamento territorial, infraestrutura adaptada e redução de emissões. Não é acidente, se é evitável. Trata-se, portanto, de um problema de gestão e governança.
Publicado originalmente em Le Monde Diplomatique.
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