Deixa sangrar até morrer: a não morte materna de Paloma Alves Moura

Autor: Emanuelle Goes
Publicado em: 22 de outubro de 2025
Atualizado em: 14 de novembro de 2025

Das imagens que vemos em filmes ou nos livros que lemos, quando uma mulher realiza um aborto e chega com sangramento no hospital, a cena costuma ser a mesma: ela abandonada em uma maca ou em um canto qualquer, sangrando até morrer.

Essa poderia ser uma cena de ficção, mas com certeza foi o cenário da morte de Paloma Alves Moura, uma mulher negra de 46 anos, que deu entrada em um hospital com muita dor e sangramento intenso.

“Ao longo do dia, foram usados mais de três lençóis, todos completamente encharcados de sangue”, relatou a acompanhante. Sem atendimento adequado e oportuno correspondente à gravidade de sua situação, Paloma teve uma parada cardíaca e morreu no mesmo dia.

Apesar do enquadramento elaborado pelo pré-julgamento dos profissionais de saúde, ela não estava gravida, logo não poderia ter realizado um aborto.

E se fosse uma hemorragia por aborto induzido? Da mesma forma, os profissionais não deveriam julgar e punir, e sim cuidar, seguir com condutas médicas para salvar vidas, porque esse é o exercício da profissão.

A moralidade que se estabelece nos serviços de saúde tem base nas discriminações explícitas e implícitas que julgam e punem, muitas pessoas morrem por isso. Um corpo negro que sangra entre as pernas sempre pode esperar: “ela aguenta”. “Suportar mais um pouquinho” é a máxima.

Sabe-se que em uma situação de quadro hemorrágico, o tempo é crucial e a demora no atendimento coloca as mulheres e outras pessoas que gestam em risco de agravamento do quadro de saúde, consequentemente de morte materna e outras mortes relacionadas.

O motivo da procura de Paloma pelo serviço de saúde foi a endometriose, que tem como um dos principais danos o sangramento vaginal intenso, além de dores consideradas incapacitantes. Estima-se que 8 milhões de mulheres enfrentam endometriose no Brasil. Os diagnósticos no país têm aumentado 76% desde 2022.





Deixe um comentário







Instituto de Saúde Coletiva • Universidade Federal da Bahia • Rua Basílio da Gama, s/n • Campus Universitário do Canela • 40.110-040 • Salvador-Bahia • +55 71 3283-7441 / 3283-7468

© 2024 Observatório de Análise Política em Saúde. Todos os direitos reservados.