Coronavírus e a “volta às aulas”

Autor: Fernando Cássio* e Salomão Ximenes**
Publicado em: 6 de abril de 2020
Atualizado em: 7 de janeiro de 2022

O fechamento generalizado das instituições de ensino superior por conta da pandemia do novo coronavírus impõe desafios enormes a estudantes, professores, familiares e gestores. Enquanto os governos ainda patinavam nas ações de contenção do surto pré-pandêmico, universidades públicas e privadas tomaram a iniciativa de suspender atividades administrativas regulares e de ensino.

Na retomada do ano letivo, ante o crescimento exponencial do contágio pelo mundo, já se prefigurava que as coisas se complicariam rapidamente no Brasil. Ainda assim, com raras exceções, a pandemia pegou as universidades públicas de surpresa, em plena programação de atividades letivas, organização de grandes e pequenos eventos e planejamento de pesquisas de campo.

Fechadas preventiva e depois obrigatoriamente, as instituições de ensino superior passaram a debater sobre o que fazer com suas atividades de ensino diante de um lockdown que, ao que tudo indica, deve durar meses. O fechamento incentivou um sem-número de iniciativas, individuais ou institucionais, de mudar a oferta de cursos e disciplinas da modalidade presencial para algum tipo improvisado de educação a distância (EaD).

Nas universidades privadas, a mudança se deu quase imediatamente, sob uma lógica de continuidade do serviço pago e regido por contrato. As instituições privado-mercantis, que há muito tempo barateiam sua oferta presencial em modalidades semipresenciais ou 100% remotas de qualidade ainda mais baixa, seguiram trabalhando. Algumas das boas universidades privadas, por sua vez, baixaram diretrizes internas e ofereceram treinamento a jato para seus professores e estudantes, disponibilizando plataformas e ferramentas para a organização de salas de aula virtuais. Embora mais lentamente do que as megauniversidades lucrativas – e menos organizadamente também, pois é difícil transpor para “EaD” um ensino superior presencial de boa qualidade em um passe de mágica –, essas universidades também estão replanejando suas atividades e tratando de colocar o bloquinho do ensino remoto na rua. De uma semana para outra, docentes e discentes tiveram de aprender a usar novas ferramentas, umas oferecidas por suas próprias instituições e outras disponíveis gratuitamente. Aos poucos, enfim, estão voltando à “sala de aula”. Estudantes e professores, juntos e isolados, cada um na sua casa.

 

Voluntarismo em meio ao caos

A rápida resposta das instituições privadas se baseia em duas coisas. A primeira é o pressuposto – equivocado, por vezes – de que todos os seus estudantes têm acesso suficiente à internet e a computadores, dispõem de condições ambientais adequadas para estudo doméstico e possuem um capital cultural que lhes assegure uma rápida adaptação ao cenário emergencial de isolamento. A segunda é a lógica consumerista que pressiona essas instituições a dar uma resposta de continuidade que justifique o pagamento das mensalidades.

 

Já nas universidades públicas, o quadro é bem mais complexo. Estamos falando de instituições de ensino superior com estruturas administrativas e cadeias decisórias completamente diferentes das privadas – mais capilarizadas, transparentes, democráticas e inclusivas. Por sorte, não é possível aos reitores das universidades públicas “decretar” a implantação da modalidade EaD, assim como não é possível implementá-la com qualidade, em grande escala e de forma rápida em instituições cujos procedimentos de empenho e execução de recursos financeiros seguem normas extremamente rigorosas e transparentes. Logo, era de esperar que, diante da necessidade de tomar decisões difíceis e urgentes, o caos e o improviso iriam se estabelecer em torno do tema.

 

Leia aqui o texto na íntegra.

 

Publicado originalmente no Le Monde Diplomatique.

*Doutor em Ciências, professor da UFABC e organizador de “Educação contra a barbárie: por escolas democráticas e pela liberdade de ensinar”, Boitempo, São Paulo, 2019.
**Doutor em Direito, professor da UFABC e autor de Direito à qualidade na educação básica: teoria e crítica, Quartier Latin, São Paulo, 2014.





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