Corona (coroa) de espinhos e pulsão de vida
Autor: Isabella Queiroz*
Publicado em: 9 de abril de 2020
Atualizado em: 7 de janeiro de 2022
Os sons, na madrugada triste,
ecoam …
Repercutem em sentidos solitários.
São números… mórbidos números!
A cidade, silenciosa,
não amanhecerá com buzinas de carros.
Não veremos crianças em escolas,
nem avós fazendo matinais caminhadas.
Não veremos pranchas e nem biquínis,
As praias… vazias…
Não há cheiro de acarajés.
A alvorada irrompe:
ouço canto de aves.
A natureza, de nada sabe.
E o outono chega, lentamente…
Talvez, as águas de março
já tenham cessado.
Talvez, as casas nos morros não venham abaixo.
Talvez, incontáveis famílias não chorem “outros” mortos
– os mortos de sempre.
Os mortos não vistos:
mulheres violentadas,
gays assassinados,
crianças famintas,
lares desabados .
Hoje, há um lamento no mundo…
o desamparo, a morte de tantos.
Morte por uma morte só:
Corona (Coroa) de espinhos!
Quanta dor!
Quanta perplexidade!
Quanta solidão nesses corpos,
Talvez expostos,
Sem afago da mão:
do amante, do amigo, do irmão.
São corpos, apenas corpos,
esperando o seu chão!
Quanto medo!
Quanto assombro!
Amanhece!
Dia após dia, a esperança se renova.
Quais as notícias de hoje?
Orações, procissões e telas.
Panos brancos nas janelas
saúdam a carreata da fé!
Hino ao Senhor do Bonfim!
É sexta-feira!
Primeira, do mês de abril.
Não há baianos nas igrejas,
Nem batuques de candomblé.
Qual justiça se esconde
nesse seu ano Xangô?
Qual justiça se esconde
nesse oceano de dor?
Na via extrema da vida,
no canto direito de plenárias
– tristes plenárias –
na contramão do curso da existência,
na gana imunda do “vil metal”
o que fizeram eles?!!!
O que fazemos nós?
Fizemos o pus e a ferida!
Somos nós a foice,
sobre a natureza agredida!
E agora?
Com que rédea segurar o destino?
Destino? Ou desatino?
A manhã sustenta-se…
sucede a noite,
faz-se a aurora!
Lentamente, matizes de sol iluminam o dia
Despertam pessoas…
Abrem-se as janelas,
penetra a luz,
iluminam os rostos!
Sim! Ainda estão a sorrir!
É a vida!
Contida, mas é vida!
É momento de espera!
Sim!
Espera de uma saída …
Chegará a manhã…
manhã tão sonhada.
Que a noite se esvaia,
que o céu azulado
confortem corações.
E que o sol espraiado
aqueça, fortaleça
a nossa vida,
ora reclusa,
ainda incubada,
esperando explodir.
Sim!
Chegará o grande momento
do mundo inteiro (espero, refeito),
Voltar, de novo, a florir!
* Doutora em Medicina e Saúde Humana, psicóloga /psicanalista, professora do Mestrado Profissional em Psicologia e Intervenções em Saúde/EBMSP, professora adjunta da Faculdade de Psicologia/EBMSP, psicóloga do Serviço de Referência em Triagem Neonatal.
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