Consequências da procura individual da felicidade dissociada da sociedade
Autor: Hernan Chaimovich
Publicado em: 7 de fevereiro de 2025
Atualizado em: 19 de março de 2025
Neste texto se analisam correlações possíveis entre os movimentos que levam a procurar felicidade individual desvinculada do entorno e as suas consequências sociais. A confusão entre correlação e causalidade pode produzir erros profundos que se estendem desde fracasso escolar até políticas públicas sem sentido. O livro de Edgar Cabanas e Eva Illouz, Happycracia – Fabricando cidadãos felizes, foi central para ordenar estas ideias.
A psicologia positiva, popularizada pelo psicólogo Martin Seligman, enfatiza a importância de estudar o que torna a vida gratificante e significativa, ao invés de se concentrar na doença. Seligman introduziu conceitos como bem-estar individual influenciando a direção da investigação e da prática psicológicas. Outros pesquisadores exploraram tópicos relacionados com a felicidade e as emoções positivas. Experimentar emoções positivas e uma sensação de alegria na vida (emoção positiva); estar profundamente envolvido e empenhado nas atividades, conduzindo frequentemente a um estado de fluxo (envolvimento); ter relações fortes e positivas com os outros, que proporcionam apoio e pertença (relações); encontrar um objetivo e um sentido para a vida, muitas vezes através de ligações a algo maior do que o próprio, como a comunidade ou a espiritualidade (significado) e perseguir e atingir objetivos, o que promove um sentimento de competência e de realização (realização).
O modelo de Seligman, que começou a quantificar aspectos da felicidade e do bem-estar, encapsula as suas ideias mais amplas sobre os componentes que contribuem para uma vida plena. Em conjunto, estes componentes realçam a complexidade da felicidade, sugerindo que esta é influenciada tanto por fatores fixos (genéticos) como por fatores mutáveis (intrínsecos e externos).
Embora alguns aspectos da felicidade possam ser influenciados pela genética, os indivíduos podem tomar medidas proativas para melhorar o seu bem-estar através do empenho, das relações, do significado e das realizações. Segundo os seguidores desta escola, a contribuição genética (G) pode ser responsável por cerca de 40% a 50% das diferenças nos níveis de felicidade entre indivíduos, sugerindo uma componente hereditária significativa para a felicidade de base. É provável que os fatores intrínsecos, incluindo os valores pessoais, os traços de personalidade (como o otimismo, felicidade e resiliência) (I) e os objetivos externos (E), também desempenhem um papel considerável. Embora a porcentagem exata possa variar, os fatores intrínsecos podem contribuir em cerca de 30% a 40% para a felicidade geral. As pessoas podem influenciar conscientemente estes fatores através do desenvolvimento pessoal e de mudanças de mentalidade. Os fatores externos (E), como as relações, o nível econômico, o ambiente e as circunstâncias da vida podem ser responsáveis por cerca de 10% a 20% da variação da felicidade (F). Assim, esta escola pode quantificar a felicidade individual como:
F= 0,4 G + 0.2 E + 0,4 I
Conforme os que aceitam esta duvidosa tentativa de quantificação dos componentes da felicidade, a possibilidade de o indivíduo modificar G ou E é limitada. Assim, a felicidade depende só do indivíduo (I). A desvinculação do entorno social, político e econômico faz com que cada um sinta que a relação com o universo independe da sociedade que o rodeia e, portanto, que a sua felicidade (F) é responsabilidade única e exclusiva das suas vontades e, claro, limitações.
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