Como funciona a economia do cuidado: de tarefa natural a trabalho reconhecido e valorizado

Autor: Nadya Araujo Guimarães
Publicado em: 22 de abril de 2025
Atualizado em: 16 de julho de 2025

Cuidar é um ato essencial. É garantir o bem-estar e sustentar a vida de outra pessoa, o que envolve, entre tantas tarefas, atividades como preparar a comida, dar o banho. Durante a pandemia de Covid-19, essa dimensão do cotidiano ganhou visibilidade e urgência. Mas, passado o momento crítico, o cuidado rapidamente voltou a ser tratado como algo natural, quase instintivo, e próprio das relações familiares — quando, na verdade, é trabalho. Um trabalho fundamental, mas historicamente invisibilizado, desvalorizado e profundamente marcado por hierarquias de gênero, classe e raça.

A partir da premissa de que o cuidado é trabalho, colegas e eu conduzimos uma ampla pesquisa internacional sobre seu provimento, marcado por custos elevados e profundas desigualdades. O objetivo foi entender como diferentes sociedades organizam a oferta de cuidado remunerado, como a pandemia afetou essa ordem e de que modo, sob distintos regimes de bem-estar, as formas de organização social do cuidado no pós-pandemia se reconfiguraram. Buscamos mapear quem cuida, em que condições e com quais vínculos, revelando os contornos deste campo de trabalho.

No centro da nossa análise esteve o reconhecimento da heterogeneidade das formas que o trabalho de cuidar pode assumir. Foi essa diversidade que nos levou à necessidade de construir uma tipologia capaz de organizar esse campo múltiplo, marcado por diferentes arranjos e intensidades. Chamamos essa proposta de “halos do cuidado” — uma imagem que remete à ideia de camadas concêntricas, nas quais variam a intensidade, a pessoalidade e a domesticidade do cuidado prestado.

A tipologia permite classificar as ocupações segundo três critérios fundamentais: o tipo de interação (direta ou indireta), a frequência (recorrente ou eventual) e o espaço em que o cuidado se realiza (doméstico ou não doméstico). De acordo com esses parâmetros, identificamos cinco grandes grupos ocupacionais, organizados segundo o grau de proximidade com quem recebe cuidado — do mais próximo ao mais distante da relação pessoal e cotidiana.

Modelo brasileiro aprofunda desigualdades

A aplicação dessa metodologia ao caso brasileiro trouxe informações contundentes. Em 2023, o trabalho de cuidado remunerado mobilizava cerca de 25 milhões de pessoas — o equivalente a um quarto da força de trabalho do país. No núcleo mais íntimo, denso e cotidiano desse mercado — o cuidado doméstico, direto e recorrente — predominavam, de forma marcante, as mulheres negras. Segundo dados da PNAD Contínua (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios – IBGE), elas representavam 62% das trabalhadoras do cuidado direto e 61% do cuidado indireto realizados no domicílio. E são justamente essas trabalhadoras que enfrentam as condições mais adversas: remunerações baixas (menos de sete dólares por hora, em média), jornadas extensas e escassa proteção social. A formalização é mínima. Apenas 21% das mulheres que prestam cuidado direto no domicílio estão inscritas na Previdência. No caso do cuidado indireto doméstico, esse percentual é similar: meros 25%.

Este artigo foi republicado do The Conversation sob uma licença Creative Commons. Leia o artigo original.





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