Cloroquina e a cautela necessária na busca por um tratamento

Autor: Maria Glória Teixeira
Publicado em: 20 de março de 2020
Atualizado em: 6 de janeiro de 2022

Em todas as situações epidêmicas as populações ficam ansiosas e inseguras, muitas vezes se nutrindo de falsas esperanças ao invés de adotarem as condutas indicadas pelos responsáveis pela saúde pública.

Ontem, 19 de março de 2020, foi amplamente divulgado pela grande mídia e redes sociais a descoberta de que uma droga, a cloroquina, se mostrou eficaz no tratamento de casos da COVID-19. Embora haja algumas evidências de que a Hidroxicloroquina tem efeito antiviral, inclusive contra o SARS-CoV-2 (agente da Covid-19), em experimentos de laboratório, cumpre alertar a população que os estudos científicos disponíveis para uso em humanos ainda são ainda muito insuficientes para indicar o uso deste medicamento aos pacientes acometidos pela COVID 19.

 

Este é o momento de todos contribuírem para reduzir a disseminação da doença, adotando as medidas de proteção indicadas, qual seja, manter distanciamento físico, permanecendo em suas casas e circulando o mínimo possível. Não podemos dispersar esforços, atenção e recursos em condutas equivocadas, em detrimento da valorização do básico, que é evitar infecções.

 

No que se refere aos serviços de saúde, a luta de todos envolvidos é para manter a qualidade assistencial na extensão necessária em cada momento do processo epidêmico.

 

No que pese o presidente dos EUA ter anunciado que liberaria a cloroquina para uso nos pacientes do seu país, o dirigente máximo da Agência Reguladora da nação informou claramente que ainda se faz necessário a condução de estudos científicos que venham comprovar ou refutar os achados iniciais envolvendo poucos doentes, cujos resultados, embora considerados promissores por algumas pessoas, não devem ainda apoiar o seu uso na rotina dos protocolos de atendimento aos pacientes com COVID-19.

 

A falsa esperança está levando a uma corrida em massa da população às farmácias para aquisição e estoque do produto anunciado como eficaz. Estamos vivenciando uma situação crítica, e temos que nos concentrar para fazer de melhor o que devemos fazer, ao invés de nos distrairmos com condutas anunciadas como milagrosas.

 

* Pesquisadora do Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal da Bahia e do Cidacs/Fiocruz Bahia.

 

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