Campanha Nise da Silveira: entre a solidariedade de classe e a luta por uma sociedade sem manicômios
Autor: Antonio Angelo M. Barreto* e Rômulo Caires**
Publicado em: 14 de setembro de 2020
Atualizado em: 7 de janeiro de 2022
Em um cenário de crises e acentuação da desigualdade e insegurança sociais, no qual a população em extrema pobreza pode chegar ao número de 14,7 milhões de brasileiros/as no ano de 2020 – atingindo de forma mais direta as camadas mais pobres da classe trabalhadora –, observamos um crescimento das iniciativas de solidariedade por parte de alguns movimentos sociais e organizações políticas.
Uma destas inciativas é a Campanha Nise da Silveira organizada pela Brigada Pedro Domiense. Ação que visa beneficiar pessoas em sofrimento psíquico – usuários/as acompanhados nos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) de Salvador – que se encontram numa situação de vulnerabilidade social e carência material agravada pela pandemia de Covid-19.
Trazemos o nome da grande militante da luta antimanicomial Nise da Silveira em momento bastante oportuno. A ofensiva da extrema-direita brasileira contra os direitos da classe trabalhadora tem efeitos devastadores no âmbito das políticas de saúde mental. Os dispositivos manicomiais são mais uma vez retomados como estratégia de controle de setores bastante vulneráveis da classe trabalhadora, que entre seus muros se tornam invisíveis, pois não podem existir sob a lógica produtivista do capital.
Os manicômios cumprem desde os primórdios a função de segregação de segmentos marginalizados da sociedade: os pobres e miseráveis, trabalhadores/as, mulheres, camponeses, desempregados, indígenas, negros, “degenerados”, pessoas “perigosas” em geral para a ordem estabelecida, pessoas que de alguma forma ou por algum motivo padecem de algo que se convencionou englobar sobre a alcunha de doença mental. Mais do que promover cuidado ao sofrimento psíquico, tais complexos funcionam como verdadeiras instituições da violência.
Para além do aspecto institucional, os manicômios exportam sua lógica para fora de seus muros, influenciando diretamente na construção de aparatos ideológicos que visam amordaçar os diversos ímpetos que questionam a ordem hegemônica. É bastante frequente a aplicação do paradigma psicopatológico para fechar o cerco dos movimentos políticos que ousam lutar contra a barbárie capitalista. São muitas vezes tachados de loucos incorrigíveis aqueles que não toleram mais a exploração e desejam a mudança radical de nossa sociedade.
Leia aqui a análise na íntegra.
*Farmacêutico e Sanitarista. Mestre em Saúde Comunitária (ISC/UFBA). Militante do Partido Comunista Brasileiro (PCB).
**Médico na Atenção Primária à Saúde. Militante do Partido Comunista Brasileiro (PCB).
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