Caminhos para a saída da fome

Autor: Marco Antonio Teixeira
Publicado em: 4 de julho de 2022
Atualizado em: 4 de julho de 2022

 

Desde o primeiro trimestre do ano passado, o tema da fome não sai da pauta pública no Brasil. População recorrendo a restos de ossos e pelancas descartados por supermercados, filas de pessoas aguardando doações de comida e furtos de alimentos são alguns dos temas que estampam as manchetes de jornais e sites de notícias. Dois relatórios lançados no começo de 2021 do projeto VIGISAN e do Grupo de Pesquisa Alimento para Justiça revelaram o que grande parte da população brasileira já vinha sentindo no cotidiano: muita gente não têm o que comer; precisa pular refeições; ou está permanentemente preocupada se teria dinheiro para adquirir comida nos dias seguintes.

Essas privações e preocupações eram vividas principalmente em lares pelos quais mulheres de raça/ cor preta ou parda eram as responsáveis, localizados nas regiões Norte ou Nordeste do país ou na área rural, para citar alguns marcadores de desigualdades alimentares. Estes dados comprovam a piora do cenário que já tinha sido apontada pelos números revelados pela POF-IBGE 2017-2018, que mostrou que a insegurança alimentar subiu de 3,2%, em 2013, seu nível mais baixo, para 4,6% em 2017-2018. Em 2020, este número chegou a 9%, de acordo com a VIGISAN, e 15% conforme a pesquisa divulgada por Alimento para Justiça.

Para alguns, a fome é um projeto e é lucrativa. Refiro-me aqui ao governo Bolsonaro e a alguns setores do agronegócio. Muitos setores da sociedade, no entanto, tentam buscar saídas para essa situação, num contexto de múltiplas crises: econômica – com altas taxas de desemprego e aumento da inflação –, sanitária, climática, política e social.

Ao pensar em soluções, alguns caminhos já são conhecidos e precisam ser debatidos novamente. Sabe-se, por exemplo, que o problema é multidimensional e que este aspecto precisa ser levado em conta. Por exemplo, não se trata apenas de pensar o acesso à comida, mas de garantir que ela seja em quantidade e qualidade satisfatórias e que atenda à cultura alimentar de cada localidade. Podemos também recorrer a experiências acumuladas em governos anteriores sobre como enfrentar a fome. Elas mostram que investir em políticas públicas para a agricultura familiar e camponesa, a regulação do estoque interno de alimentos no país e a geração de renda são ações fundamentais para buscarmos saídas para a fome.

Porém, neste texto, quero sugerir que a saída da fome no contexto atual deve ser pensada de maneira a incluir as vozes daqueles que estão mais próximos e se deparam com a tontura, o ar no estômago, ou a visão amarela, como Carolina Maria de Jesus descreveu a sensação de fome, na obra clássica “Quarto de Despejo”.

*Publicado originalmente na Agência Bori.





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