Câmara de deputados, 17 de abril de 2016: Ideologias sem disfarce

Autor: Carmen Teixeira
Publicado em: 26 de abril de 2016
Atualizado em: 1 de janeiro de 2022

Um sentimento geral de indignação perpassa grande parte da população brasileira, que assistiu perplexa e enojada o triste espetáculo proporcionado pelos deputados federais que compareceram à Câmara dos Deputados, na sessão do dia 17 de abril, para votar o parecer do relator do processo que apreciou a admissibilidade do impedimento da presidente Dilma Rousseff.

Durante toda esta semana acompanhamos a divulgação de vários textos, artigos, comentários e mensagens através das redes sociais, unânimes em compartilhar a estranheza diante da forma como foi conduzido o processo e, principalmente, a atitude da grande maioria dos deputados que votaram pelo SIM. A análise dos discursos dos parlamentares, contida na maioria desses artigos e comentários, chama a atenção para o despreparo da maioria dos deputados, evidenciado tanto pelo conteúdo de suas falas quando pela forma como trataram de expressar sua opinião.  

Tendo acompanhado a sessão, também me dei ao trabalho de anotar alguns trechos das falas e me propus a sistematizar elementos que possam subsidiar uma reflexão acerca das ideologias que se expressam nos discursos, as quais fundamentam práticas políticas conservadoras, retrógradas e antidemocráticas. Por isso mesmo precisam ser conhecidas e analisadas a fundo por quem se interessa em participar da “luta das ideias”, cada vez mais urgente e necessária tendo em vista a defesa e consolidação dos princípios e valores pelos quais lutamos há 40 anos, desde que nos engajamos na luta pela Democracia, pela reconstrução do Estado de Direito e pela Reforma Sanitária neste país.

Levando em conta a frequência com que determinados discursos se repetiam, cabe, em primeiro lugar, constatar que a grande maioria dos deputados que votaram pelo SIM não fizeram menção ao teor do parecer do relator do processo, emitindo sua “justificativa” para o voto com bases em outros elementos, notadamente a “homenagem” a familiares, “padrinhos políticos”, cidades onde moram, eleitores que votaram neles ou igrejas a que se vinculam. Em segundo lugar apareceu a menção frequente à luta contra a corrupção, as críticas ao PT e aos governos Lula e Dilma, sendo que com relação a esta última as críticas se atêm tanto ao que tem sido feito quanto ao que, no entender destes parlamentares, o  governo deixou de fazer. Em terceiro lugar aparece a menção às “forças de segurança”, aos “militares de 64”, e, no limite, a “homenagem” a um coronel ligado à polícia política da ditadura militar, conhecido pelas práticas de tortura a que submeteu dezenas de presos nos anos 70, inclusive a própria presidente Dilma. E por último, mas não menos importante, vários dos deputados que votaram pelo SIM tentaram justificar seu voto apelando para a baixa popularidade da presidente, atribuindo essa baixa popularidade ao seu estilo de governar.

Do lado dos deputados que votaram contra o impeachment, a maioria discutiu mais se houve ou não crime de responsabilidade, defendendo a democracia fazendo referência à ilegitimidade do processo, sua caracterização como um golpe urdido pelo vice-presidente, Michel Temer, em aliança com o presidente da sessão, deputado Eduardo Cunha. Com variações, o discurso do NÃO clamou pelo respeito à Democracia e ao Estado de Direito chamando a atenção para  o fato que não pesa contra a presidente nenhuma acusação de corrupção, enquanto cerca de 60% dos parlamentares respondem a processos, inclusive o próprio presidente da Câmara.

Mais do que agregar os elementos do discurso pela frequência com que apareceram nas falas dos parlamentares, penso ser interessante desagregar tais elementos, tratando de identificar a matriz ideológica em que se ancoram. Nessa perspectiva, consegui listar cerca de 15 aspectos que em alguns discursos aparecem conectados e em outros aparecem isolados. Passo, portanto, a listar um por um com o objetivo de facilitar a compreensão e a crítica das ideologias que permeiam o pensamento e a prática dos parlamentares, expressão de um certo “senso comum”, que tende a se generalizar por conta da ação massificadora da mídia institucionalizada, reprodutora sutil dessas ideologias que apareceram, sem disfarce, na sessão do dia 17.

Clique aqui para ler a análise na íntegra.





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