Bolsonaro inelegível: qual direita virá por aí?
Autor: Glauco Faria
Publicado em: 5 de julho de 2023
Atualizado em: 5 de julho de 2023
“A vida prossegue. A política tem horror a vácuo. Ela substitui as peças com muita rapidez e organiza uma fuga para frente.” A declaração do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Gilmar Mendes, dada nesta quarta-feira (28) em um fórum jurídico na Faculdade de Direito de Lisboa, ilustra uma realidade da arena política desde sempre e, obviamente, traz a reflexão sobre as possíveis consequências da decretação da inelegibilidade de Jair Bolsonaro.
Em entrevista concedida ao Deutsche Welle, a doutora em ciência política pela Universidade de São Paulo (USP) e professora da Escola de Políticas Públicas e Governo da Fundação Getúlio Vargas (FGV EPPG) Graziella Testa aponta que o vácuo apontado por Gilmar Mendes pode ser preenchido por alguém de orientação semelhante à de Bolsonaro. “É mais provável que esse resultado [do julgamento no TSE] gere dividendos para a direita ou centro-direita, para outros candidatos ou outras personalidades desse campo. Esse é um eleitorado que dificilmente vai cruzar tão longe o espectro político.”
Seria, de fato, o caminho mais evidente. Mas a constatação abre caminho para outro debate: quando se fala de direita no Brasil, do que exatamente estamos falando? Desde 2018, em especial, este campo passou a ter como protagonista um segmento extremista, cuja atuação se baseia em uma espécie de terrorismo moral pavimentado pelo antiesquerdismo que agregou campos e interesses distintos desde antes da própria eleição de Bolsonaro.
O ex-presidente só conseguiu chegar ao Palácio do Planalto nestas condições específicas que envolvem um caldo de autoritarismo presente na população brasileira, fruto da própria história do país e também da ausência de uma justiça de transição efetiva na redemocratização, e do cerco promovido pela Lava Jato, com suas irregularidades múltiplas. O status quo que apoiou este movimento não calculou que entre as consequências estaria, por exemplo, a virtual falência da condição de competidor nacional de partidos tradicionais, como o PSDB, que durante décadas polarizou com o PT.
Se economicamente o governo Bolsonaro conseguiu contemplar os interesses dos grandes, especialmente do mercado financeiro, outros aspectos de sua gestão, como a condução da pandemia, incomodaram parte dessa mesma elite e segmentos da mídia tradicional que trataram anteriormente de normalizar a extrema direita como se fosse parte natural do jogo. Não à toa, durante boa parte de 2021 e 2022 se falou a respeito da formação de uma suposta “terceira via”, que nunca vingou.
Artigo publicado originalmente em Outras Palavras.
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