Boas de parir: mulheres negras e violências reprodutivas

Autor: Emanuelle Goes*
Publicado em: 22 de novembro de 2019
Atualizado em: 5 de janeiro de 2022

“Quando o médico se aproximou de mim disse, agora com essas mulheres aqui vocês não terão nenhum problema. O parto é rápido e sem dor. Igualzinho a cavalos. […]. Eu sentia dor do mesmo jeito que as mulheres brancas […]. Além disso, esse médico não sabe do que ele tá falando. Ele nunca deve ter visto uma égua. Quem disse que elas não sentem dor? Só porque ela não chora?”. Tony Morrison, em O olho mais azul.

 

Reprodução, exaustão e resistência são palavras que fazem parte do vocabulário de mulheres negras escravizadas e que permanecem até os dias de hoje: somos vistas como as que suportam tudo, no senso comum e na (pseudo) ciência. Estas características vinculadas às mulheres negras, construídas nos processos de colonização e escravização, sustentam as ideologias racistas que organizam a sociedade e seu imaginário e, pela mesma forma, são reproduzidas nas práticas de saúde, na atenção e no acesso aos serviços, revertidas em violências estruturais e institucionais, causando adoecimento e morte das mulheres negras.

As histórias de mulheres negras escravizadas contam que elas eram vistas também a partir do seu potencial reprodutivo. Angela Davis nos ajuda quando resgata essas histórias no livro Mulheres, Raça e Classe (2016). Conforme a autora, com a abolição internacional do comércio de escravos, houve um maior investimento na reprodução natural, por meio da exploração dos corpos das mulheres negras, que chegavam à exaustão. Com isso, elas tornaram-se “crescentemente avaliadas pela sua fertilidade (ou falta dela): aquela que fosse potencialmente mãe de dez, doze, catorze ou mais tornava-se um tesouro cobiçado”. No Brasil temos a história de Aqualtune, uma rainha africana transformada em escrava, que foi vendida e trazida ao país, com a finalidade de ser uma escrava reprodutora.

 

“Eu pari treze filhos e vi a maioria deles ser vendida para a escravidão, e quando eu clamei com a minha dor de mãe, ninguém a não ser Jesus me ouviu! E não sou uma mulher?”, protestou a abolicionista afro-americana Sojourner Truth, em 1851. Ser “escrava reprodutora” não significa que essas mulheres eram mães, e este lugar não lhes adicionaria nenhum benefício com um estatuto mais respeitável do que tinham como trabalhadoras na lavoura (Angela Davis, 2016).

A exaltação ideológica da maternidade tinha e tem um padrão racial – o branco – que não se estendia às escravas e não se estende às mulheres negras nos dias de hoje, submetidas às hierarquias reprodutivas que indicam como algumas maternidades são mais ou menos legítimas e aceitas socialmente do que outras.

 

Leia aqui a análise na íntegra.

 

*Enfermeira, Doutora em Saúde Pública (ISC/UFBA) e blogueira do População Negra e Saúde.





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