Avanço das Organizações Sociais no SUS impõe debate sobre limites e governança do modelo
Autor: Valéria Alpino Bigonha Salgado
Publicado em: 7 de abril de 2026
Atualizado em: 12 de maio de 2026
A expansão das parcerias entre Secretarias de Saúde e Organizações Sociais (OS) no Brasil atingiu um novo patamar e já configura um dos principais arranjos institucionais de provisão de serviços no Sistema Único de Saúde (SUS).
Os resultados mais recentes desse processo foram apresentados publicamente em 19 de março de 2026, em reunião que marcou a divulgação inicial de uma pesquisa conduzida pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), baseada na análise da Base de Dados de Organizações Sociais em Saúde – BDOSS+ e em investigação qualitativa com atores estratégicos do sistema.
Os dados apresentados na reunião, realizada nas dependências do Ministério da Gestão e Inovação, em Brasília, revelam que mais de 4.200 estabelecimentos de saúde do SUS são operados por meio de relações de colaboração com entidades civis sem fins lucrativos, sendo cerca de 77% em parceria com Organizações Sociais de Saúde (OSS) e aproximadamente 12% a outras organizações do Terceiro Setor.
A distribuição desses estabelecimentos evidencia a centralidade do modelo na atenção primária, que concentra cerca de 54% dos ajustes de parceria, seguida pela atenção especializada (18,7%). Hospitais (13%) e unidades de urgência (11%) aparecem em menor proporção, mas com grande impacto estratégico na rede. A adoção das parcerias é predominantemente municipal — 87% dos contratos são firmados por municípios —, o que reforça o papel dos entes locais na difusão do modelo.
Trata-se de um crescimento relativamente recente, intensificado a partir da década de 2010, que passa a reconfigurar, de forma concreta, a organização da oferta pública de serviços de saúde no país.
A pesquisa da UFMG buscou ir além da dimensão quantitativa, incorporando um componente qualitativo robusto, baseado em entrevistas com gestores públicos, dirigentes de estabelecimentos, especialistas e representantes da sociedade civil. Os resultados indicam que há reconhecimento consistente de ganhos operacionais associados ao modelo, especialmente em função da maior flexibilidade gerencial. A possibilidade de contratação mais ágil de profissionais e aquisição de insumos, aliada a menor rigidez administrativa, tem permitido, em diversos contextos, ampliar a produção assistencial, reduzir filas e melhorar processos internos.
Tais resultados têm sido frequentemente apresentados como evidência de ganhos de eficiência, ampliação da produção assistencial e melhoria de processos. No entanto, uma leitura mais atenta desses achados — à luz das próprias críticas levantadas no debate técnico — revela um quadro muito mais complexo e, em certos aspectos, preocupante.
Publicado originalmente em Domingueira/Idisa.
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