Até onde é possível tolerar as perversidades humanas?

Autor: Paloma Silveira*
Publicado em: 22 de março de 2021
Atualizado em: 4 de janeiro de 2022

O ano de 2021 começou para muitas pessoas como aquele que traria novos tempos, os das esperanças de dias melhores. Era necessário acreditar em algo que nos permitisse vislumbrar outros horizontes diante de tantas mortes, violências e genocídios que constituíram 2020. A pandemia escancarou os horrores e as perversidades da sociedade brasileira. Nunca fomos uma sociedade cordial e muito menos harmoniosa, vivendo em uma idílica democracia racial. Esses mitos ditos e repetidos exaustivamente produziram/produzem diferentes deformações, incluindo o obscurecimento do caráter perverso de nossa sociedade extremamente violenta, racista, desigual e patriarcal/machista, que odeia tudo aquilo que contradiz essa falaciosa “mitologia”. Nem a realidade concreta foi/é suficiente para encararmos esse mundo terrível onde nos habituamos a viver.

 

Exterminar os povos originários e negros desde que o Brasil se tornou Brasil não conta. Os números parecem não dizer nada e muito menos a realidade da vida como ela é, já que são essas pessoas – pessoas? – que têm seus direitos constitucionais sistematicamente desrespeitados e vivem, em sua grande maioria, em condições indignas, precárias, de vida. A vida humana – humana? – pouco tem importado. A noção do que pode ser considerado humano é sócio-histórica e varia muito, como podemos inclusive notar em algumas falas do antipresidente: “O índio mudou, tá evol… Cada vez mais, o índio é um ser humano igual a nós” e “Olha, o afrodescendente mais leve lá pesava sete arrobas. Não fazem nada. Acho que nem pra procriador serve mais”.

A violência contra as mulheres e os feminicídios também. Estupros de mulheres indígenas e negras – mulheres? – constituíram nossa história. Mesmo sendo brancas, em geral, nós mulheres sofremos diversas violências desde o período colonial, entretanto, ocupando lugares bem distintos dentro dessa perversa estrutura social que se reproduz e se reatualiza. A morte de Miguel no ano passado é emblemática nesse sentido. Miguel, uma criança negra de 5 anos, filho de Mirtes Souza (ex-empregada doméstica), morreu ao cair do 9º andar de um prédio de luxo em Recife. Foi deixado no elevador sozinho pela patroa branca e rica, que em entrevista ao Fantástico disse: “fiz tudo que podia”. Sarí Côrte Real, a “sinhá”, foi indiciada por abandono de incapaz e está aguardando os trâmites processuais em liberdade. Se fosse o contrário, não é difícil de imaginar qual seria a situação de Mirtes.

Chegamos em março de 2021 com a sensação de que 2020 não acabou, estamos vivendo o pior momento da pandemia. Mortes de milhares pessoas por dia, quase trezentas mil morreram, sendo que os números podem ser ainda maiores por causa das subnotificações. Colapsos nos sistemas de saúde de várias cidades; um programa de não-vacinação que até o momento vacinou menos de 5% da população brasileira; risco de faltas de insumos importantes como oxigênio; uma inflação altíssima, carestia, sem o auxílio emergencial; milhões de desempregades, milhões na miséria. Nem o passado e nem esse presente nefasto tem sido capaz de afetar solidariamente a parcela da população, os/as 20% a 30% de apoiadores/as do antipresidente que continuam a bradar a favor do “mito”, realizando inclusive carreatas em algumas cidades brasileiras.

 

Leia aqui a análise na íntegra.

 

*Mulher cis, heterossexual, reconhecida socialmente como branca, professora, psicóloga e às vezes artista. Mestra em Psicologia pela UFPE e Doutora em Saúde Coletiva pelo ISC/UFBA.
*Agradeço a Gurgel por tudo e pelo o que ainda está por vir.





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