Análise do voto evangélico ou a fortaleza bolsonarista
Autor: Marina Basso Lacerda
Publicado em: 23 de agosto de 2022
Atualizado em: 23 de agosto de 2022
No Brasil, via de regra, entende-se que não há voto confessional, no sentido de que a religião de um candidato seja o fator determinante para o voto dos fiéis, pois existem vários critérios – econômicos, sociais, regionais, entre outros – para a decisão do eleitor. No máximo haveria a lógica do irmão vota em irmão, mas somente para o legislativo, e não para o executivo. É o que explica, por exemplo, o pesquisador Vinícius Valle (USP), que se dedica ao tema há anos.
De fato. O cientista político Jairo Nicolau (FGV) lembra que Anthony Garotinho, presbiteriano, concorreu pelo PSB nas eleições de 2002 e fez um apelo especial aos evangélicos, sem sucesso – parte expressiva das lideranças apoiou Lula. Marina Silva, fiel assembleiana, não conseguiu o apoio das principais denominações evangélicas para suas campanhas em 2010 e 2014. Pastor Everaldo, em 2014, obteve apenas 2,6% dos votos válidos.
Mas estima-se que cerca de 70% dos votos válidos dos evangélicos tenham ido para Bolsonaro em 2018, tendo sido a mobilização desses religiosos “um dos fatores determinantes” para sua vitória, como argumenta Nicolau. Assim, autores como o especialista em estudos da religião na América Latina, José Perez Guadalupe, supõem que a eleição de Bolsonaro em 2018 tenha sido uma exceção à tradição de que não há voto confessional no Brasil.
Vários fatores explicam a vitória de Bolsonaro. Mas, em relação ao público evangélico, há questões específicas, já bastante conhecidas. Bolsonaro, desde meados de 2010, fez uma guinada em sua carreira, passando a liderar temas caros ao evangelismo. Protagonizou a luta contra o “kit gay” – termo que ele mesmo inaugurou – e tornou-se o mais vocal representante da defesa de uma agenda paleoconservadora, que tem a direita cristã como ator central, como descrevi em artigo recente.
Além disso, há a crise econômica desde 2011, com consequências sentidas, de maneira crescente, entre as classes populares. A rede de proteção oferecida por igrejas é tanto mais relevante quanto mais escassas são as políticas estatais ou difíceis são as condições sociais e econômicas, e talvez, em tais contextos de crise, a confiança dos fieis em seus pastores seja aumentada. Pode-se supor também que a ausência de esperança em melhores condições de vida tenha sido compensada nos argumentos morais e de autoridade, em grande parte capitaneados por religiões de matriz pentecostal.
Outra explicação certamente reside nos fenômenos que levaram à prisão de Lula e a seu impedimento de disputar as eleições. Existe, como aponta o cientista político André Singer (USP), uma predisposição de longo prazo, entre as classes populares, de adesão à direita no Brasil. Essa tendência teria sido desativada com as gestões de Lula e seu perfil conciliador. Mas, com a retirada de cena do petista, a campanha de Bolsonaro teria semeado em terreno fértil.
*Publicado originalmente no Le Diplomatique Brasil.
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