ABSURDO E A ESPERANÇA – Contra o bloqueio no orçamento das universidades federais
Autor: João Carlos Salles
Publicado em: 30 de maio de 2022
Atualizado em: 30 de maio de 2022
1. Pensem num absurdo; neste governo, temos vários precedentes. No caso dos bloqueios orçamentários, nós já os tivemos em governos anteriores, é verdade – e contingenciamentos sempre foram um péssimo sinal. Entretanto, neste governo, os bloqueios, além de prenúncios de cortes efetivos, costumam ser acompanhados de uma desqualificação das universidades e têm como foco a redistribuição de recursos para outros propósitos – muitas vezes, bastante afastados do interesse da educação ou da cultura em geral. Por isso mesmo, não estamos apenas diante de contingências do planejamento econômico, mas sim de uma política de progressiva defasagem orçamentária e de efetiva redução no orçamento de instituições que, em nosso país, se destacam por produzirem ciência, cultura e arte.
Não estamos diante do primeiro bloqueio de recursos da educação, nem do primeiro corte a incidir sobre o fomento à ciência e à pesquisa, nem do primeiro ataque à cultura e às artes. Há um método claro. Em momentos continuados de crise na área da educação, o atual governo tem sistematicamente preferido investir contra a imagem das universidades, dos estudantes e dos educadores, em vez de optar por uma saída que nos reforce a independência intelectual e nos consolide uma cultura capaz de afastar-nos da miséria e do preconceito. Escolhe a barbárie, portanto – e rejeita nossa balbúrdia de conceitos e pesquisas, de liberdade e democracia, tanto na produção de conhecimento quanto no exercício continuado de solidariedade.
O bloqueio (e sobretudo o corte) torna-se assim um claro instrumento de retrocesso. A história agora se repete; e, mais uma vez, as universidades federais, já combalidas por forte defasagem orçamentária, enfrentam a ameaça de não conseguirem honrar seus contratos. Afirma bem a nota da ANDIFES: “Inadmissível, incompreensível e injustificável o corte orçamentário de mais de R$ 1 bilhão que foi procedido ontem pelo governo (27/05/22) nos orçamentos das Universidades e Institutos Federais brasileiros”.
Com efeito, isso é tanto mais grave por sermos colhidos em pleno voo, quando assumimos a tarefa de retorno pleno à nossa casa e muito necessitamos dos recursos de custeio para completar a preparação de auditórios e salas de aula, de laboratórios de pesquisa e ensino, de residências e restaurantes universitários. Com o bloqueio, parecem querer retirar-nos o chão e o futuro. Afinal, ao retomarmos plenamente as atividades presenciais de ensino, pesquisa e extensão, faz-se necessária a ampliação das despesas com limpeza, manutenção predial, vigilância e com materiais de consumo, além do consequente aumento de despesas com luz e água – e tudo isso devendo ser feito sem descurar dos cuidados com medidas sanitárias compatíveis com instituições como as universidades e os institutos federais, exemplares na defesa do valor inegociável da vida.
*Texto publicado originalmente no Edgard Digital.
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