A Saúde Coletiva é muito mais que Uma Só Saúde

Autor: Marcelo Firpo Porto e João Arriscado Nunes
Publicado em: 9 de setembro de 2025
Atualizado em: 9 de outubro de 2025

Nos últimos tempos o campo da Saúde Coletiva tem debatido a abordagem da Saúde Única (One Health) ou, como tem sido traduzida pelo governo brasileiro, Uma Só Saúde. Existem pelo menos duas dimensões que vêm marcando os debates, uma de natureza político-institucional e outra mais epistemológica. A principal contribuição deste texto é epistemológica, porém iniciaremos com a primeira dimensão pois ambas se encontram profundamente interconectadas.

No âmbito da Saúde Coletiva, a dimensão político-institucional tem orbitado entre dois polos. O primeiro assume um posicionamento fortemente crítico, liderado inicialmente pelo CEBES (Centro Brasileiro de Estudos de Saúde) (1) e posteriormente aliado a pesquisadores da Saúde Coletiva (2), principalmente vinculados ao GT Saúde e Ambiente da Abrasco (Associação Brasileira de Saúde Coletiva). Um segundo polo reconhece a importância de dialogar com as diretivas internacionais procedentes da Organização Mundial de Saúde que vêm dando destaque à One Health. No contexto brasileiro isso vem ocorrendo principalmente desde 2024, quando foi criado o Comitê Técnico Interinstitucional de Uma Só Saúde, e posteriormente o Plano de Ação Nacional de Uma Só Saúde, cuja consulta pública durou um mês e se encerrou em 22/8/2025.

No recente artigo de Carmem Leitão e Rômulo Paes (3), o atual presidente da Abrasco, assume a necessidade de diálogo. Parte do reconhecimento das controvérsias e tensões entre atores que atuam e militam na gestão e pesquisa no campo da saúde pública, em especial com relação ao SUS. Dentre as críticas destacadas a partir principalmente do Cebes, aponta-se a fragilidade da Saúde Única em compreender e enfrentar as causas estruturais das crises climática, ambiental e sanitária, assim como o fortalecimento do SUS. Nega-se um pilar central da Saúde Coletiva envolvendo a Determinação Social da Saúde e o enfrentamento das desigualdades e injustiças sociais e de saúde, ambas correlacionadas. Por outro lado, os autores assumem uma posição pragmática sobre a necessidade de diálogo com a abordagem da Saúde Única, dada a grande projeção internacional que esta assumiu no contexto da pandemia de covid-19 e do agravamento da crise climática, e que foi abarcada pela OMS como principal resposta institucional para implementação de ações regionais e nacionais.

O Plano de Ação Nacional de Uma Só Saúde deve ser visto como resultado de um arranjo institucional mais amplo envolvendo a governança internacional para enfrentar novas pandemias após a radical crise sanitária de covid-19. A ONU e a OMS ocupam assim uma posição central na realização de acordos que passam por processos políticos e diplomáticos que buscam acomodar uma diversidade de interesses. Tais processos favorecem processos decisórios “aceitáveis” por diferentes e poderosos atores, e o desfecho acordado pode ficar muito distante de análises mais abrangentes que sugerem transformações sistêmicas. Esse parece ter sido o caso da “convergência” em torno da One Health, que reuniria ao mesmo tempo saúde ambiental, humana, animal e vegetal. Essa proposta foi inicialmente enunciada em 2004 com um simpósio internacional nos EUA intitulado “One World, One Health”, organizado pela Wildlife Conservation Society que reuniu especialistas e instituições de saúde pública, agricultura, vida selvagem e biodiversidade.

*Publicado originalmente em Outra Saúde.





Deixe um comentário







Instituto de Saúde Coletiva • Universidade Federal da Bahia • Rua Basílio da Gama, s/n • Campus Universitário do Canela • 40.110-040 • Salvador-Bahia • +55 71 3283-7441 / 3283-7468

© 2024 Observatório de Análise Política em Saúde. Todos os direitos reservados.