A extrema direita no governo federal feriu gravemente o SUS

Autor: Paulo Capel Narvai
Publicado em: 15 de dezembro de 2023
Atualizado em: 15 de dezembro de 2023

 

“Ainda bem que o governo Lula conta com Nísia Trindade na saúde e no comando do SUS.” O elogio à ministra veio de um amigo, médico e ex-secretário municipal de saúde de uma cidade paulista, após o programa “Conversa com o Presidente”, de 12 de dezembro de 2023, que teve também a participação da ministra da Saúde. Ao completar o primeiro ano do seu terceiro mandato, o presidente Lula vem fazendo um balanço e prestando contas à sociedade.

Faz bem. É um esforço para superar as dificuldades da comunicação social do seu governo e, sobretudo, para enfrentar a desinformação e a deliberada má informação divulgada intensivamente contra ele e seus ministros. Mas algumas dificuldades do Lula3 vão além da desinformação e das fake news, tão nocivas à democracia e ao convívio social. Algumas dificuldades têm origem no próprio presidente da República.

Lula propõe soluções simplistas para questões complexas, e isso é um problema. Mas essas “soluções” têm origem na amplamente reconhecida sensibilidade de Lula para captar, compreender e tentar solucionar as dificuldades enfrentadas cotidianamente pela maioria das pessoas. “Lula acerta no diagnóstico, mas erra na terapia”, disse o amigo médico gestor do SUS.

Lula acerta no diagnóstico quando sente que a população precisa do SUS, quer manter e desenvolver nosso sistema universal de saúde, público, controlado pelo Estado e “pela comunidade”, como garante o artigo 198 da Constituição de 1988, mas quer mais e melhores serviços. Lula sabe que o povo defende o SUS, mas quer um SUS melhor do que o que temos hoje. Reconhece que é correto o foco posto, neste ano, na intensificação do esforço para recuperar perdas enormes na cobertura vacinal, na redução de filas “para tudo” em decorrência da desestruturação de serviços municipais imposta pela pandemia e pelo corte de recursos feitos na gestão anterior.

Sabe também que “a destruição” do ministério da Saúde não é apenas uma expressão retórica, própria do discurso político. Nísia Trindade e o primeiro escalão da Saúde, que reúne um punhado de craques, vêm fazendo das tripas coração para refazer as equipes e processos de gestão que, tendo levado muitos anos para se constituírem, foram brutalmente desmontados nos quase sete anos de péssima administração federal do SUS.
Esse contexto começou a ser produzido logo após o golpe de 2016, pela equipe posta por Michel Temer para cuidar do SUS, e dramaticamente agravado pelo desgoverno neofascista entre 2019 e 2022. No federalismo brasileiro, organizar programas e projetos de saúde pública leva tempo, exige muita competência e recursos. A extrema direita no governo federal feriu gravemente o SUS.

Lula sabe, portanto, que não é fácil o trabalho, minucioso e competente, que Nísia Trindade vem conduzindo com sua equipe na reorganização do seu ministério, na rearticulação e reestruturação dos entes federativos que integram o SUS, reatando e fortalecendo relações interfederativas, e, quando necessário, realizando intervenções diretas, como no caso da saúde indígena. Por isso, o presidente blindou Nísia Trindade. Freou a cobiça pelo seu cargo, chamou para si sua nomeação e a fortalece sempre que pode, como fez no encerramento da 17ª Conferência Nacional de Saúde, em 5 de julho de 2023, e no programa “Conversa com o Presidente”, ocasião em que acenou para o cenário que deseja para a saúde “no final do meu governo”, indicando claramente que Nísia Trindade permanecerá na equipe de ministros.

O tom de voz, o rigor com dados, o apoio em evidências científicas e o estilo “meia-luz” de Nísia Trindade contrastam com a busca de holofotes, as meias-palavras, a grandiloquência e a estridência de alguns ministros, do atual e de governos passados. Alguns, inclusive no partido do presidente, a consideram frágil e hesitante, mas isso é apenas aparência. O conjunto de ações que marcam o trabalho realizado pelo ministério da Saúde no Ano-1 do Lula3 mostra o oposto.

*Publicado originalmente em A Terra é Redonda.





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