A extrema direita descobriu os direitos humanos após 8 de janeiro?

Autor: Fábio Carvalho
Publicado em: 3 de agosto de 2023
Atualizado em: 3 de agosto de 2023

O Brasil tinha, no fim do ano passado, população prisional de 832 mil pessoas. A esse total foram acrescidos cerca de 1,5 mil homens e mulheres nos presídios da Papuda e da Colmeia, ambos em Brasília, no dia seguinte aos ataques antidemocráticos de 8 de janeiro. Esse grupo parece ter mudado radicalmente a percepção da extrema direita sobre direitos humanos nos cárceres, mas uma mirada mais ampla não autoriza essa conclusão.

A trajetória do deputado federal Marcel van Hattem (Novo-RS) é um bom exemplo. Há uma semana, ele integrou comitiva de parlamentares bolsonaristas em viagem ao exterior. O objetivo era internacionalizar a luta em defesa daqueles que são considerados presos políticos pela extrema direita e entregar ao Comitê de Direitos Humanos da ONU documento acerca de supostas violações sofridas pelos denunciados pelos crimes de associação armada, tentativa de abolição violenta da democracia e de golpe de Estado.

O deputado começou a alimentar seus seguidores com uma live antes do embarque no aeroporto de Guarulhos, mas a falta de intimidade com o tema talvez justifique sua viagem com destino a Nova York – o Comitê de Direitos Humanos da ONU fica, na verdade, em Genebra, na Suíça.

Em 2014, o ainda desconhecido Marcel van Hattem tentava uma vaga na Assembleia Legislativa gaúcha pela terceira vez. Durante uma atividade de campanha no Parque da Redenção, em Porto Alegre, ele cruzou com a petista Maria do Rosário, empunhou seu megafone e disparou hostilidades à deputada federal. “A senhora nos envergonha, porque a senhora defende bandidos”.

Seu vídeo viralizou no YouTube e, assim, ele teve seu primeiro mandato estadual. Pois foi em 2014 que repercutiu a expedição de medida cautelar pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH/OEA) contra a violação de direitos no Presídio Central, em Porto Alegre. A CPI do Sistema Carcerário já havia escolhido o Central como o pior presídio do país em 2008.

Um de seus projetos propôs que os presos indenizassem o erário – com dinheiro, se tivessem, ou com trabalho – pela “estadia” em prisões como o Central. Embora inútil, cínica e perversa, a ideia foi um sucesso junto a seu eleitorado e ele se tornou o deputado federal gaúcho mais votado em 2018.

*Texto publicado originalmente no portal Brasil de Fato. 





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