A extrema-direita avança em terreno vazio

Autor: Roberto Amaral
Publicado em: 4 de março de 2024
Atualizado em: 21 de maio de 2024

Para bem compreender o processo social em curso, o primeiro passo é reconhecer que a direita e a extrema-direita brasileiras vêm dando seguidas mostras de vitalidade e capacidade organizativa, principalmente a partir de 2013 e daqueles idos de junho, que, sob as mais variadas facetas, chegam até aqui como que marcando um determinado ciclo, inconcluso, de nossa história contemporânea.

No curto espaço histórico de onze anos, a direita cassou um mandato presidencial, deu as cores do governo Michel Temer, o perjuro, elegeu presidente da República um obscuro deputado fascista, desorganizou o Estado e impôs pesadas perdas dos direitos políticos, dos direitos previdenciários, trabalhistas e sociais de um modo geral. Impôs retrocessos que ainda estão longe de serem consertados, todos levados a cabo em face de uma sociedade e de um sindicalismo silentes. É o thatcherismo caboclo. O 25 de fevereiro, nada obstante sua relevância, não terá, pois, surpreendido o observador da cena brasileira. E há, ainda, muito o que aguardar das forças protofascistas aqui atuantes, aparelhadas e bem fornidas de apoios do sistema.

A incontestável capacidade de mobilização revelada no episódio paulistano indica, ademais, o nível de organização alcançado pela direita, que já não esconde suas ligações internacionais, particularmente com a direita dos EUA, em plena ascensão sob o protagonismo de Trump. A concentração do último dia 25 também pôs a nu o volume de recursos políticos, logísticos e financeiros que a direita pode mobilizar, impondo às esquerdas brasileiras, de há muito ausentes das ruas, uma necessária revisão de seu projeto político (qual é mesmo, hoje?) e uma reavaliação do papel até aqui desempenhado.
Não devemos subestimar o desafio político da direita, mormente quando estamos em face de uma articulação internacional que já viceja em nosso continente, com a derruição da democracia e as promessas de centro-esquerda. A ascensão de Javier Milei, na Argentina, é a mais recente advertência.

Em qualquer hipótese, o quadro visto do alto recomenda às esquerdas brasileiras pôr as barbas de molho. Porque o que está em jogo é algo mais que o governo do presidente Lula.

No que nos diz respeito, o ponto de partida é considerar o fato objetivo, pesar sua importância real, esmiuçá-lo, compreendê-lo e, afinal, construir a alternativa do enfrentamento necessário e inevitável, embora até aqui recusado. O largo campo das esquerdas brasileiras está sendo chamado a rever seu papel presente, de continuado recuo, diante do desafio organizacional e do proselitismo da direita, que mais avança na medida em que as forças progressistas renunciam à batalha ideológica. Essa renúncia, que vem de longe, é o ponto nodal do desafio que nos propõe o processo social.

Publicado originalmente em Blog do Esmael.





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