A extração de valor e a Big Pharma
Autor: Reinaldo Guimarães
Publicado em: 13 de fevereiro de 2023
Atualizado em: 13 de fevereiro de 2023
Tendo como gancho a explosão da bolha das Americanas, artigos recentes de Luiz Gonzaga Belluzzo e João Furtado(1) tratam do atual padrão de acumulação das empresas, enfatizando a agressiva estratégia da extração de valor por parte dos acionistas, cujo negócio são os papéis, independentemente dos produtos tangíveis por elas produzidos ou comercializados. E, digo eu, dos padrões éticos envolvidos no processo.
É de Belluzzo o seguinte trecho “Nos anos 1960, tempos dos oligopólios de Berle e Means e dos gerentes obcecados com o crescimento da empresa no longo prazo, a cada 12 dólares gastos com a compra de máquinas ou construção de novas fábricas, apenas 1 dólar era gasto com os dividendos pagos aos acionistas. Nas décadas seguintes, a proporção começou a se inverter: mais dividendos, mais ‘juros sobre o capital próprio’ e menos investimentos nas fábricas e na contratação de trabalhadores”. E no dizer de Furtado “[o estouro da bolha]… é produto de um modelo empresarial parasitário, em que os controladores têm pouco interesse no negócio e estão preocupados, sobretudo, com os resultados financeiros, mesmo que à custa do negócio e de sua sustentabilidade”. Já, boa parte dos executivos se interessa mais por sua própria sobrevivência nas cadeiras que ocupam, à mercê dos controladores de olho naqueles resultados.
A crise das empresas dos três bilionários é um exemplo extremo de descompromisso com as finalidades intrínsecas do empreendimento. Se a “inconsistência” não fosse descoberta agora, seguiriam e em algum momento passariam o mico preto adiante. Mas penso que não é o desastre (principalmente para os trabalhadores, algo como 50 mil) o que define o modelo, pois há setores industriais prósperos, sem ter a curto prazo a sua sustentabilidade ameaçada, mas que abraçam a mesma extração desenfreada de valor. Pode haver outros, mas certamente um dos mais importantes é a indústria multinacional de medicamentos e vacinas que, a partir de meados da década de 1990, passou a ser chamada de Big Pharma.
Em 2014, publiquei um artigo na revista Facto, da ABIFINA, intitulado “Os Dilemas da Big Pharma”, que iniciava com duas declarações de dirigentes de grandes farmacêuticas, declarações separadas por 60 anos. Em 1952, um herdeiro da empresa Merck, então membro do seu conselho de administração, afirmava como princípio da empresa: “We try never to forget that medicine is for the people. It is not for the profits. The profits follow, and if we have remembered that, they have never failed to appear. The better we have remembered it, the larger they have been”(2). Já em 2014, o presidente executivo (CEO) do ramo farmacêutico da Bayer, Marijn Dekkers, apresentava a estratégia da empresa que dirigia: “We did not develop this medicine for Indians. We developed it for western patients who can afford it.”(3).
Considero que a indústria farmacêutica multinacional retrata com perfeição e amplia a análise de Belluzzo e Furtado. E me pergunto que voltas o mundo deu no tempo que separa as duas frases – tão opostas em seu conteúdo – ambas ditas por dirigentes de grandes companhias farmacêuticas? Foi nesse intervalo que a indústria farmacêutica dos Estados Unidos e da Europa gerou o padrão atual de condução dos negócios nesse setor, responsável por um mercado global que vale hoje cerca de um trilhão e meio de dólares em um regime de cada vez maior oligopolização, com 20 empresas respondendo por cerca de metade desse mercado gigantesco.
Tendo como pano de fundo a estratégia geral da extração de valor como padrão dominante de acumulação, a metamorfose da indústria farmacêutica para tornar-se Big Pharma envolveu várias estratégias específicas, todas elas ancoradas em uma arrastada crise em sua capacidade de desenvolver e produzir moléculas verdadeiramente novas e eficazes.
*Publicado originalmente em Terapia Política.
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