A esquerda que peca pela boca e coração
Autor: Ricardo Queiroz Pinheiro
Publicado em: 28 de abril de 2025
Atualizado em: 3 de junho de 2025
Se há algo difícil de superar no cotidiano da esquerda, pior do que o Centrão e o teto de gastos, é conversar sem tropeçar em palavras que já vêm marcadas. Sem superar isso, em breve estaremos todos juntos chorando dentro de um boteco com os nossos manuais de verdades absolutas debaixo do braço.
Não é novidade que a disputa por sentido sempre foi parte essencial da política. O que muda, hoje, é a intensidade com que os conflitos simbólicos ocupam o centro da arena pública. Não se trata de um fenômeno novo, mas de uma aceleração: as palavras foram reativadas como território estratégico, e não apenas como meio de expressão. A esquerda, por sua vez, ampliou de forma consistente os modos de nomear e interpretar o mundo a partir das lutas concretas de grupos historicamente marginalizados.
Essa ampliação é uma conquista histórica, um avanço. Mas também traz um desafio importante: a fragmentação dos vocabulários pode dificultar a construção de um horizonte comum de ação. A dificuldade não está no excesso de vozes, mas na ausência de mecanismos capazes de ligar essas vozes em torno de um projeto político compartilhado.
A política institucional — especialmente nas disputas públicas mais amplas — exige objetividade e articulação. Não se trata de reduzir a complexidade das experiências, mas de encontrar formas de expressá-las de modo que possam ser reconhecidas também por quem vive outras realidades, com outros repertórios. Sem essa ponte, mesmo a formulação mais justa corre o risco de não mobilizar.
A extrema direita percebeu isso e usou bem. Criou uma linguagem direta, emotiva, fácil de repetir, mesmo que cheia de distorções. Não é uma linguagem mais verdadeira ou justa, mas funciona como código comum para quem a consome. Com poucas palavras, ela mobiliza medo, pertencimento, hostilidade e ódio. Sua força está na repetição organizada, não na coerência interna.
Nesse cenário, o termo “identitarismo” se tornou um espantalho funcional — dentro e fora da esquerda. Criado como crítica à fragmentação sem projeto, passou a ser usado para desqualificar lutas legítimas por reconhecimento e redistribuição. Em muitos casos, virou um recurso fácil para evitar enfrentamentos reais — ignorando ou desprezando a complexidade política, histórica e afetiva dessas pautas. Parte da esquerda, ao aderir a esse uso superficial, contribuiu para desarticular alianças e embaralhar disputas fundamentais. A direita, com faro apurado, capturou o desgaste: juntou ao seu pacote de preconceitos, violência e generalização o uso da diversidade como sinônimo de desorganização, e tratou a diferença como sinal de fraqueza, desvio ou ameaça à ordem.
Enquanto isso, o neoliberalismo se aproveita do cenário. Ele não precisa apagar a diversidade, ele a exalta empastelando seus propósitos — assim, garante que ela não se organize politicamente de forma coordenada. Incentiva causas isoladas, transforma demandas em nichos e lutas em produtos. A multiplicidade sem articulação não ameaça o sistema; apenas o torna mais adaptável.
Publicado originalmente em Outras Palavras.
Deixe um comentário