A eleição indireta será a nova crise

Autor: Renildo Souza
Publicado em: 31 de maio de 2017
Atualizado em: 21 de dezembro de 2021

O tensionamento nacional extremo, a polarização política e o esgarçamento do tecido institucional, além do desemprego avassalador, atingiram o paroxismo e voltaram-se como bumerangue contra seus antigos beneficiários, a exemplo do ilegítimo presidente Michel Temer e do revanchista senador Aécio Neves. O fato político evidente é que Temer já era, acabou. O decreto de convocação das Forças Armadas, no dia 24 de maio, como se fosse um golpe de Estado, a fim de tentar demonstrar a sustentação militar do presidente, evidenciou apenas o desespero de Temer que, diante das críticas generalizadas, inclusive ressalvas do comandante do Exército, foi obrigado a recuar e revogar a medida extremista no dia seguinte. Neste momento grave, as forças conservadoras preparam a permanência e a renovação da crise política com a eleição indireta para o restante do mandato presidencial. Eis a nova peça central do desmonte do país, em prejuízo direto ao povo.

A queda de Temer, em si mesma, é um fato alvissareiro para a democracia. Remove-se a maior expressão do golpe do impeachment contra a presidente Dilma. O afastamento de Temer significa uma grande derrota para as correntes direitistas na sociedade brasileira. Esse revés não deve ser subestimado. Temer era o condutor das reformas trabalhista e previdenciária, que assim ficam chamuscadas. O colapso do governo Temer é um alívio temporário importante para as forças progressistas, até há pouco acossadas, acuadas, massacradas pelo ataque concentrado e permanente do consórcio político, judiciário e midiático.

Dois fatores abalaram a unidade e o controle da iniciativa política pelo conjunto das forças conservadoras:

1. o repúdio estrondoso da grande maioria da população à reforma da Previdência, desde março passado,
2. e o episódio no dia 17 de abril das negociatas de Temer com Joesley Batista, dono  da JBS, em registro gravado.

A cena política mudou. Agora, é a vez dos holofotes mirando a atração principal, o espetáculo patético do governo Temer em estrebucho, nas ânsias da morte. Os dias que retardam a queda do usurpador dilaceram ainda mais o campo das forças da direita. Rachou a aliança conservadora, inclusive com a divergência dentro do monolítico partido da mídia, entre a Globo, de um lado, e a Folha de São Paulo, Estadão, de outro lado. Posto em marcha, o atual curso político ganha vida própria, dinamismo, brotam o tempo todo novo fatos, desdobramentos, encadeamentos, a exemplo de prisões de mais assessores de Temer, do pedido de prisão de Aécio e assim por diante. Por enquanto, é o movimento político que se autoalimenta, irrefreável, de dificuldades para os direitistas. É nesta nova dinâmica essencialmente política que podem ser mobilizadas aquelas grandes massas trabalhadoras que até o momento têm mantido uma atitude geral passiva, sem participação direta, sem intervenção nos acontecimentos principais da vida pública nacional. Os fatos políticos vão despertando o interesse, a atenção, o envolvimento dessas camadas mais profundas da nossa sociedade, afastando confusões, desinformação e narrativas conservadoras.

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