A disputa pelo orçamento, o SUS e seus trabalhadores
Autor: Solange Caetano
Publicado em: 9 de dezembro de 2024
Atualizado em: 23 de janeiro de 2025
Está para ser apreciado no Congresso Nacional um pacote de corte de gastos apresentado pelo ministro Fernando Haddad que penaliza, exclusivamente, os trabalhadores. Apesar de anunciado junto com a promessa de ampliar a taxa de isenção do Imposto de Renda para os que ganham até R$ 5 mil, as medidas devem ser votadas separadamente pelos deputados; e eles se apressam em aprovar os cortes, sem perspectiva de aprovar a isenção do IR.
O governo apresentou as medidas no mesmo dia, dando ênfase à isenção do Imposto de Renda, para minimizar os efeitos negativos, e só detalhou os cortes no dia seguinte. É claro que a correção do Imposto de Renda é urgente; já cortar gastos nas políticas públicas que prejudicam os mais pobres é uma tentativa de agradar ao mercado financeiro, esse ente sem rosto que dá as cartas no Brasil e em quase todo mundo.
Os cortes que devem ser aprovados pelo Congresso retiram investimentos em direitos sociais e trabalhistas, como na correção do salário-mínimo, abono salarial, Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação (Fundeb).
O pacote limita a valorização do salário-mínimo a um teto fiscal, aplicando a mesma medida a benefícios sociais, como o abono salarial e ao BCP – Benefício de Prestação Continuada. Esta medida atinge todos os trabalhadores que ganham até dois salários-mínimos e, portanto, já não pagam IR; então a isenção até R$ 5 mil quando e se for aprovada, beneficia a classe média. É uma medida justa, mas não compensa aqueles que perderão com o pacote de arrocho.
O governo apresentou como “compensação” à proposta de ampliação da faixa de isenção do IR, o aumento da alíquota para quem recebe mais de R$ 50 mil. Essa medida pode compensar o caixa da União, mas não compensa em nenhuma hipótese os prejuízos para os trabalhadores.
Mesmo assim, o faminto mercado quer mais e ameaça com uma Proposta de Emenda Constitucional ainda pior, para se contrapor à proposta do governo. Deputados da direita articulam a desvinculação constitucional das verbas da Saúde e da Educação. Hoje, o governo é obrigado a aplicar 18% da receita líquida de impostos na Educação. E, para a Saúde, o investimento é de 15% da receita corrente líquida.
Se obtiverem êxito nesta PEC alternativa, na área da Saúde, por exemplo, os primeiros a sofrerem serão os trabalhadores, especialmente a Enfermagem que hoje já encontra dificuldade para fazer valer o Piso Salarial Nacional.
O Sistema Único de Saúde, que precisa de mais investimentos, verá suas verbas diminuírem, colocando em xeque o atendimento de primeira que salvou milhões de vidas durante a pandemia de Covid-19.
Há uma pressão constante sobre o governo para que assuma esta política que não fez parte das promessas de campanha do presidente Lula. E se a direita pressiona, os trabalhadores precisam pressionar também e mostrar que têm força.
Por isso, é indispensável mobilizar e sair às ruas, por apoio à política econômica com a qual se elegeu o presidente Lula. Hoje, o PIB do Brasil chega a crescer 4%; a inflação está sob controle; o desemprego tem o mais baixo índice da história, mais de 80% das categorias conquistaram aumento real de salário nas convenções coletivas assinadas neste ano.
Este é o caminho a ser seguido, foi por ele que o presidente Lula ganhou a eleição.
Publicado originalmente em Outra Saúde.
Presidenta da Federação Nacional dos Enfermeiros (FNE).
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