A Crítica da Crítica em Momento Crítico

Autor: Alessivânia Mota*
Publicado em: 20 de fevereiro de 2018
Atualizado em: 3 de janeiro de 2022

Resenha de ‘MARX, K. Introdução [À Crítica da Economia política]. In: MARX, K. Os pensadores. São Paulo: Nova Cultural, 1996, p. 25-54’ apresentada na disciplina ISC520 – Políticas de Saúde, do Programa de Pós-graduação em Saúde Coletiva do Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal da Bahia.

 

Introdução

Esta resenha tem como objetivo central apresentar uma compreensão mínima sobre algumas categorias e reflexões constantes na teoria desenvolvida por Karl Marx, no capítulo em referência. Ao longo da disciplina Políticas de Saúde nos aproximamos de várias categorias marxianas apresentadas por outros autores, acredito eu, como parte de uma estratégia metodológica que proporcionasse aos/às discentes uma encontro gradual com o arcabouço teórico e estilo literário de Marx, cuja compreensão passa por um desafio intelectual relevante.

Outra hipótese construída para o encontro com Marx ocorrer neste momento do curso é a utilização do próprio método proposto por este na disciplina, onde inicialmente foram selecionadas algumas categoriais abstratas, visando negar-lhe a imediaticidade, ou seja, colocarmos em suspensão/suspeição o que sabemos sobre estas categorias – Estado, infraestrutura, superestrutura, materialismo histórico, etc. Em seguida, fazermos um exercício de abstração – operação intelectual onde estas categorias (objeto de reflexão) – “isoladas” da totalidade possibilitou-nos compreendê-las a partir de suas múltiplas determinações sociais, históricas e econômicas, para então, a partir de agora, situá-las novamente (fazer o caminho de volta), na totalidade da qual fora deslocada, ou seja, a teoria social de Marx. Dessa forma, é possível compreendê-las (as categorias) a partir de uma perspectiva concreta pensada e não mais a partir de uma perspectiva abstrata, ingênua e destituída de determinações.

O texto, “Introdução (à crítica da economia) política”, trata-se de um esboço teórico produzido por Marx, que só fora publicado após sua morte. Faz uma exposição teórica e sistemática do método da Economia Política para o estudo da sociedade humana, considerada por alguns estudiosos a parte mais relevante da introdução, bem como apresenta algumas categorias que vão subsidiar a construção da sua teoria social, baseada no ciclo produtivo – produção; distribuição; troca (circulação) e consumo, no modo de produção capitalista.

No prefácio, Marx registra a importância de realizar uma crítica à Economia Política bem como descreve o percurso metodológico utilizado por ele em sua trajetória de pesquisador, militante e escritor de artigos para jornais, como forma de garantir a sua subsistência. Alerta aos futuros leitores que, em caso de julgamentos ou discordâncias de suas opiniões, não lhes pode ser negado que estas foram “frutos de longos e conscienciosos estudos”, o que sugere, portanto, um caminho semelhante para a desconstrução ou negação destas. Faremos aqui uma apresentação dos principais elementos contidos em cada uma das seções do texto, arriscando registrar minhas compreensões sobre estas, visando dialogar com as compreensões obtidas pelos/as colegas durante o debate.

1.    A produção em geral
Nesta seção, Marx sinaliza que seu ponto de partida para análise é a produção material; como os indivíduos produzem em sociedade, considerando que a reprodução da vida social ocorre de forma socialmente determinada. Nega o naturalismo da existência presente em Smith e Ricardo, bem como a total independência da natureza apresentada por Rousseau. Para Marx, é preciso apresentar os indivíduos como seres históricos, onde, quanto mais se remonta a história, melhor se lhe aparece como produtor dependente e fazendo parte de um todo mais amplo. Rechaça qualquer explicação histórica e filosófica para as relações econômicas cuja gênese histórica tenha sido ignorada pelos estudiosos.

Feitas essas considerações, Marx adentra na questão referente à produção. Segundo o autor, a produção precisa ser analisada a partir de um grau determinado do desenvolvimento social da produção, bem como a partir de uma determinada época (no caso da produção burguesa moderna) e não apreendida de uma forma geral, pois incorreria num processo de abstração infrutífero para análise, mesmo reconhecendo a existência de determinações comuns para a produção em geral. Afirma que a produção deve ser vista, mas não somente, como um ramo particular da produção. Dessa forma, é preciso distinguir entre a produção em geral, os ramos de produção particulares e a totalidade da produção em quaisquer análises que se queira fazer sobre a realidade social e econômica de determinado contexto.

Marx apresenta uma crítica sobre a forma como os autores expõem as condições gerais de toda produção, registrando que essa forma geralmente expõe: I – Condições sobre as quais é possível produzir – onde apenas indica-se os momentos mais essenciais, limitando-se a certo número de singelas determinações que se diluem em tautologias vulgares; II – As condições que dão maior ou menor intensidade à produção.  Reconhece, portanto, que para alcançar a cientificidade da construção da produção, seria necessário fazer um estudo sobre os graus de produtividade em diferentes períodos, no desenvolvimento de certos povos, cuidando-se para não cair em tautologias, a exemplo de afirmações como: “a riqueza se produz com maior facilidade, conforme seus elementos, subjetiva e objetivamente, existam em maior proporção”.

Seguindo, Marx aponta dois pontos principais que todos os economistas colocam sob essa rubrica, referente às leis que regem o recebimento (de um quantum) da produção social: 1 – a propriedade – onde toda produção é apropriação da natureza pelo indivíduo, no interior e por meio de uma determinada forma de sociedade, mas não se podendo generalizar dessa premissa, para a propriedade privada, por exemplo, e 2 – a proteção desta pela justiça, pela polícia etc., considerando que cada forma de produção cria suas relações de direito, suas formas de governo próprias. Para finalizar, Marx alerta-nos que, quando as condições sociais sobre as quais a produção se organiza estão em processo de formação ou esgotamento, tende a manifestar-se “naturalmente” perturbações na produção, com suas especificidades em graus e efeitos.

 

Clique aqui para ler o texto na íntegra.

 

*Mestre em Psicologia Social e do Trabalho. Assistente Social. Doutoranda do Instituto de Saúde Coletiva na área de Políticas, Planejamento e Gestão.





Deixe um comentário







Instituto de Saúde Coletiva • Universidade Federal da Bahia • Rua Basílio da Gama, s/n • Campus Universitário do Canela • 40.110-040 • Salvador-Bahia • +55 71 3283-7441 / 3283-7468

© 2024 Observatório de Análise Política em Saúde. Todos os direitos reservados.