A aversão da extrema direita pela Universidade
Autor: José Eduardo Campos Faria
Publicado em: 14 de maio de 2025
Atualizado em: 13 de junho de 2025
A exemplo do que ocorreu com o nazismo e o fascismo, na década de 1930, e com o bolsonarismo e o trumpismo entre os anos de 2017/2018 e 2021/2022, as instituições acadêmicas continuam suscitando um desafio para governos autoritários e iliberais, como se vê no início do segundo mandato de Donald Trump, à frente do governo dos Estados Unidos.
Por um lado, Trump vê as universidades como ameaça aos valores tradicionais, motivo pelo qual seu governo só decidiu oferecer subsídios e financiar as atividades de ensino e pesquisa às universidades que se submetem à sua visão de mundo. Para se ter ideia do alcance dessa medida, em 2023 foram repassados pelo governo Biden a essas universidades US$ 60 bilhões para atividades de pesquisa e desenvolvimento – e, das 25 instituições que mais obtiveram recursos federais, 16 passaram a ser investigadas após o governo Trump tê-las acusado de desprezar os tais valores tradicionais.
Por outro lado, o governo Trump e a extrema direita que o apoia têm consciência de que precisam das inovações propiciadas pelas instituições acadêmicas para assegurar aquilo que ele persegue: o domínio absoluto nos campos da tecnologia, da economia e da força militar. No entanto, é possível conciliar as duas coisas? Se a resposta for afirmativa, como promover essa conciliação?
Esta discussão não é nova. A história moderna e contemporânea sempre evidenciou como as relações entre Estado e financiamento de universidades – especialmente no que se refere à formação de quadros técnicos e desenvolvimento da ciência e tecnologia de ponta – tendem a converter saber eficaz muitas vezes em sinônimo de poder econômico e político. Também mostrou como, num determinado momento, a extrema direita americana alargou o conceito de inimigo político interno, com o objetivo de incluir nele professores e intelectuais com pensamento crítico.
Os Estados Unidos, por exemplo, obtiveram a hegemonia econômica, política e militar em termos mundiais quando passaram a atrair as elites científicas europeias depois da primeira guerra mundial, entre 1914 e 1918. E, a partir do momento em que sucessivos governos americanos se tornaram um dos principais financiadores de pesquisa científica, inovação e desenvolvimento, eles impuseram a chamada pax americana a partir do final da segunda guerra mundial, ocorrida entre 1939 e 1945.
Agora, num período da história contemporânea em que os problemas sociais, econômicos e políticos mais importantes exigem a produção e o processamento de um alto grau de conhecimento científico inovador, o mundo assiste a ofensiva da extrema direita liderada por Trump contra a autoridade científica, à liberdade de expressão e à liberdade acadêmica, chegando até mesmo ao ponto de tentar intervir no Departamento de Estudos sobre Oriente Médio da Harvard University e de tentar obrigá-la a reformular o processo seletivo de estudantes estrangeiros para impedir a matrícula de alunos hostis aos valores americanos.
Trata-se de uma iniciativa que retira isenções fiscais, subsídios e financiamentos às universidades americanas que se negam a ser submissas. E a justificativa – baseada em falsidades e mentiras – é que essas universidades não estariam combatendo o antissemitismo, seriam palco de um ativismo excessivamente progressista e enfatizariam a tríade diversidade, a equidade e a inclusão, pondo assim o ativismo à frente do conhecimento e, por consequência, deixando de formar “melhores cidadãos”.
*Texto publicado originalmente no Jornal da USP.
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